Á uma hora viu entrar o marido, chapéo á banda, a tosca physionomia viciosa, com angulos de vertices sinistros, sombriamente cortados em sombra, os olhos absortos, fixos n’um pasmo selvagem, feramente imbecil—como a incarnação do crime! Ella cosia-se com a sombra, sustendo a respiração. A rua estava dormente, a visinhança recolhida; viam-se passar os gatos de escada para escada, n’um silencio lugubre e frio. O pedreiro agarrou n’uma cadeira e esmigalhou-a com estrepito, no meio de pragas. E não tendo resposta, agarrou no oratorio. Os martyres mutilados e cheios de fitas, os seus rostos de pau pintado cheios de inchações vermelhas, cahiam com uma resignação biblica no meio da casa. Ella então sahiu da sua sombra discreta e disse-lhe com os dentes estralejando de medo:
—Manoel, anda deitar-te, homem. Tem hoje paciencia, ámanhã se fará o que queiras.
O pedreiro cresceu contra a pobre, com um pé da cadeira quebrada na mão; agarrou-a pelas guelas com uma força de salteador, e torcendo-a, rangendo a queixada, ebrio na sua ferocidade surda, descarregou-lhe pancadas furibundas nas costas, na cabeça, contra o peito. E ergueu-a inerte, como morta, para a lançar no chão moida de pancadaria. No emtanto a visinhança acordava pelo reboliço; apitos soaram na rua; duas mulheres em saias brancas gritaram—ó da guarda!—e policias arquejantes da corrida, enfiaram pela casa com os chanfalhos em riste. O pedreiro queria luctar, esbracejava furiosamente entre os pulsos cabelludos dos agentes, blasphemando. Pelos grupos, uma velha suja, olho de coruja, andava tomando informações, de uns para outros, com lamentos de uma piedade desenxabida. Tinha-se alastrado na rua o borborinho. Alguem trazia arnica para as contusões da prove. Uma rapariga aconselhava cerveja preta, cousa de quatro dedos, que não havia nada melhor para maçadas de arrocho. E varios narravam casos do pancadaria com pessoas tesas, que desarmavam a patrulha, com tres tabéfes. O pedreiro amarrado, entre dous policias, passou entre as mulheres curiosas, no meio de pragas. E explicavam-se as feridas da mártyle; havia uma na cara com’a dois dedos, e já aquillo vertia sangue!... Uma rapariga trigueira, de uma prenhez disforme, tinha suas desconfianças que havia costella partida. Outros gesticulavam, tentando elucidar com figuras e arremedos, a narração que iam fazendo de como a gente era cá por dentro. Mas ouviu-se a voz da patrulha que descia a rua.
—Nada de ajuntamentos aqui! Nada de ajuntamentos aqui!—E cada um foi para a sua banda, dando boas noites. A triste espancada nem dava accordo de si. Corridas as primeiras curas das feridas, cada um foi dormir descançadamente e ninguem se lembrou de chamar o medico.
Sem o filho, sem uma pessoa que velasse por ella, a triste mulher revolvia-se nas enxergas ás escuras, em gemidos de dôr e desvairamentos de febre.
E como de costume a manhã rompeu d’alli a cinco horas, annunciando uma terça-feira de inverno.
O dia correu em meio de tristezas carregadas. A casa emergia n’um torpor abafado. Na rua dois ou tres pequenitos brincavam semi-nús, com lama. O João andava d’uma banda para a outra, sem poder socegar. Desde as onze horas que a mãi perdera o tino e mergulhara no delirio. Sentia-se sepultar n’um horror sem limites, como se fôra um ponto suspenso no centro d’uma grande esphera vazia, inerte, sem fim, em que eternamente se gira e embalde se chora, sem echo. Fôra de mansinho e descalço, cheio de uma ternura lacrimosa, chamar por ella, dar-lhe agua: a sua pelle sêcca, de um contacto aspero, ardia de febre intensa. Os olhos, de um azul apagado, escancaravam-se n’um pasmo doloroso; um sulco parvo distendia-lhe a bocca, sêcca e fetida; a respiração cortada, longa, lenta e difficil, soava por toda a casa, com um ruido de serra. O João parava então em frente da cama, absorto e diluido em presentimentos tragicos. A alcova era estreita e núa, de tecto muito baixo, toda pespontada das moscas. Uma cruz negra pendia á cabeceira, com uma palma sêcca, ao través. N’um canto, um caixote cheio de ferramentas manchava cruamente as faces rectangulares do recinto. Umas saias esfiadas pendiam n’um cabide, com um capote verde, e em torno, moscas aos magotes, zumbiam famintas, como quem se aborrece da ociosidade. D’alli a nada entrou a senhora Joaquina, a visinha do lugar. Trazia um caldo, duas maçãs, cobertas com um guardanapo. E curvada para a doente perguntava como tinha passado a noite, mas calou-se logo empallidecendo, com a chicara na mão.
O olhar do João collava-se n’ella como um borracho sob a aza da mãi, um terror ullulante penetrava-o, com profundeza gelida e cheia de allucinação. A senhora Joaquina olhou para o pequeno e disse isto:
—A cousa está mal!—E sem uma palavra ergueu-se e sahiu. Elle ficou pregado na parede, sem resolução: ouvia os baques do coração convulso, mas não pensava nada, não se lembrava de nada; ficára para alli, como se o atirassem. E media as palavras no ouvido: