—A cousa... está... mal! O que seria?—Tentava fazer um supremo esforço, queria por força voltar á sua disposição habitual, respirar livre, mover-se elasticamente, marchar firme, com os seus rijos pés plebeus, mas experimentava uma cousa, inexplicavel talvez: era como se o seu corpo se alongasse muito n’uma facha elastica, e lhe tivessem esmagado a cabeça entre laminas de ferro, depois de o haverem adormecido com chloral, em grande dóse. E no fundo do seu peito dobravam como n’um enterro, aquellas quatro palavras lugubres:
—A cousa está mal!—Os seus olhos erravam pelo tecto, pelo cabide de que pendia o capote em contornos de mortalha, amplas dobras de um funerario abandono. E casualmente, desceram contra as roupas da doente, que arfavam ao tic-tac da respiração. O dia estava triste e forrado de burel; ouvia-se cahir a chuva nas telhas, com um compasso monotono e fino. Á alcova mal chegavam franjas pardas e mal definidas de luz, que não conseguiam contornar as cousas e em triangulos colossaes, amontoavam penumbras ondulantes, de um pavor febril. No animo do João tambem, enormes scenarios de trevas desciam, e obelisco de bronze, o infortunio como o aniquilava sem appello. A sua imaginação viva e de uma excitabilidade supersticiosa e audaz, fazia surgir como no alvo de um phantascopio, grupos nubivagos de defuntos e velhas historias diabolicas de enforcados que ouvira ás visinhas: e tudo eram olhos pela parede, pelas enxergas e pelo chão, na sombra, na treva, na incerta claridade da porta, que o fitavam escancarados, com uma teimosia agoureira e uma surpreza cubiçosa. E parecia-lhe que alguem o ia a tomar pelo gasnete, que velhas sardonicas, cheias de feitiços, afiavam estyletes para o rasgarem, e um papão de grandes barbas revoltas, capuz profundo de asceta, levantava sobre elle os braços prenhes de maldições e castigos. Os seus ouvidos resoavam interiormente, n’uma vibração confusa de archeus; sentia as fontes baterem com uma onda de sangue convulsionado, e todo o seu desejo era fugir d’alli e correr para fóra; mas tinha medo de voltar-se; o silencio gelava-o, como de crypta secular, em que se tropeça em ossadas de cavalleiros, e se abrem caixões de velludo preto, ao gemer estranho do orgão. Pela tarde adiante a visinha chegou, com uma garrafa, mostarda, lençoes lavados. E poz-se a fazer sinapismos, esfregações, toda repartida em desvelos amigos. Ao lado, o João immovel abria os seus ingenuos olhos azues, uma admiração tosca e vagamente reconhecida. A Joaquina ageitava as roupas, desembaraçada, mangas de lã vermelha e um lenço de ramos sobre os seios murchos, como fructos sorvidos. E dizia:
—Isto é lá cama nem minha avó!
E alto:
—Vossês não teem um quarto com janella? Mudava-se para lá a cama, sempre ha mais ar.
—Ha, ao pé da cozinha. É o meu.
Foram ambos vêr. Era um casinholo arruido. Quasi no tecto uma fresta pyramidal e profunda, sem vidros, dava uma claridade amarella: ouviam-se ratazanas roer no forro, familiarmente.
A vizinha resmungou:
—Peor a emenda que o soneto!—E com um ar distrahido:—Doenças d’estas, ou bem tratadas ou então...
As ultimas palavras fizeram calefrios na espinha do rapaz. A Joaquina corria-lhe a mão pelos cabellos, com ternura de mãi. E olhava-o esquecida, uma tristeza contemplativa cheia de presentimentos e emoções. Uma lagrima cahiu na mão do rapaz. Elle então quiz olhar firme, com a coragem de um homem, mas alguma cousa estrangulou-o, e deixou escapar um soluço...