Quando acabou de chorar, a Joaquina tinha-o no collo, dava-lhe beijos, dizendo-lhe consolações banaes e cheias de mimo. E d’alli a nada:

—Olha, filho, se ella pudesse tratar-se no hospital...

Elle ficou afflicto, todo desconsolado:

—Mas ficava aqui só. Não a via nunca, objectou.

—Qual! Aos domingos dão licença para visitar as enfermarias, lá isso dão.—E explicava: havia muita caridade, boas roupas, tudo de linho, e quanto a medicos... a mestrança... upa!

O João com as pernas apoiadas na parede, a cabeça no avental da visinha, resistia tremendo. Cortava-lhe a resolução, como uma lamina frígida, esta idéa excentrica e rubra:

—Se ella morresse...

Tinha os olhos cheios de lagrimas limpidamente angelicas e uma pallidez definhada, retocava de um mimo casto a graça correcta do seu rostinho ingenuo. Por mais esforços que fizesse deixava-se ir vencendo por um quebramento pesado de fatalidades lividas. A Joaquina fazia tambem grande esforço querendo parecer forte, exteriormente alegre, e a cada passo o seu ar tranquillo e descuidoso, obscurecia-se de angustias, que o seu coração de burgueza bolsava em golfadas. E dizia como para si:

—Mandei chamar o medico para vêr a minha visinha. Se elle fôr de parecer que vá para o hospital, agarramos n’ella e toca! O meu homem é muito dos enfermeiros. Um d’elles, o Bento, é afilhado; o Zeferino é até compadre de aguas bentas. Ia bem recommendada, não tem duvida. Lá isso... tratada que nem uma princeza, ólá!—E circumvagando a vista pelos andrajos dos quartos:—que n’esta possilga, meu rico, até morrem os que tem saude. Nem sei como vossês aqui viviam e lidavam.—Cuspia de nojo, e resentida:

—Ai! Tudo por causa d’aquelle negro d’aquelle bebedo, Deus me não castigue pela sua misericordia!