Ao anoitecer, a doente empacotada n’uma maca, foi aos hombros de quatro gallegos para o hospital. Era um cortejo doloroso. As mulheres chegavam ás portas, arregaçadas, no meio de filhos descalços. Algumas diziam—coitadinha!... D’uma janella, a costureira explicava o caso para o segundo andar, e duas ou tres tinham lagrimas e torciam os aventaes, lamentando as cousas d’este mundo. A maca era velha e rangente; o vento da noite erguia a espaços o oleado carcomido e apparecia então na caixa do leito o corpo immovel e morto da velha, coberta com o capote, indecisamente esboçado. Ia atraz o João, descoberto e afflicto, triste na sua pobreza descalça e orphã, como um cão fiel que esqueceram. A Joaquina parada á porta, chorava. Uma ovarina passou, inquiriu do pranto. A outra mostrou-lhe com o dedo a maca, que desapparecia no cotovelo da rua, e disse:
—Aquella já cá não volta.—Escurecera de todo. Um homem de blusa accendia os lampeões.
No hospital, a maca pousou. Dois moços vieram para expulsar o pequeno, que queria ficar com a mãi. Sósinho, abandonado e partido de soluços, foi-se acocorar n’uma porta: ficava diante, com uma grandeza sepulchral, a parede branca do edificio, glacial e esburacada de janellas, onde uma luz vaga, mortiça, esmorecia. Junto da porta a sentinella girava, e no pateo através das grades, figuras de apostolos, enfileiravam a sua magestade de pedra junto da parede, em pedestaes geometricos e frios. Alli estava a mãi! O que iriam fazer d’ella? Nunca entrára na enfermaria: como seria? E figurava camas de palha cheias de podridão, em que se estorcem corpos de gallegos e mulheres tisicas, n’uma promiscuidade canalha. Sentia suffocações no peito: nem podia chorar! E a rua no entanto, sonora de passadas de transeuntes, operarios que recolhiam, garotos felizes que vadiavam gritando, offerecia aspectos alegres e scenas de vidas bem alimentadas, no quente aconchego dos ménages probos e robustos de labor. Uma saudade lacerante entrou no coração do garoto; e como nunca, encarou a sua vida miseravel. Quando entrou em casa teve medo: uma solidão mortal na cozinha, as ratazanas tripudiando no saguão; abandono, pobreza em tudo. E seria assim sempre! O pai na prisão. A velha no hospital. Que desgraça, que desgraça a sua!...
No dia seguinte era preciso comer. Por conselho da visinha foi vender os jornaes, para não perder os freguezes. Ao meio dia foi saber da mãi. Expulsaram-no de novo, com uma vara. Perdeu a vontade de comer, voltou para casa aniquilado, amarello e vazio.
—Se ella morreu! dizia. E pavores immensos, soturnos phantasmas de uma transparencia madida, surgiam-lhe de noite aos portaes, gemendo Credos de monges, e mostrando dentuças formidolosas. Uma tarde estava no lugar da Joaquina, com os pequenos. Entravam uns e outros a beber vinho: ao balcão um grupo conversava, entre a fumarada dos cachimbos. A voz da visinha gritou:
—João!
Elle foi. A Joaquina disse:
—D’ámanhã em diante, has-de levar o Noticias a este senhor.—Apontava um velho secco, olho morto, ar veterano, de blusa azul.
O João olhou timidamente.