—Lá, os semestres teem vinte e quatro horas, entendes? Tornaram a rir-se. O que era velho tinha dentes aguçados e negros de carie: quando ria, esgares de grotesco barbaro repuxavam-lhe as maçãs do rosto tostado, de idolo. Os annos tinham-lhe polvilhado os cabellos, hirsutos como juncos seccos. No outro dia mal amanheceu, o pequeno entrou a porta do carro[3], subiu a rampa, encostado á Escóla. No terreiro parou para orientar-se. Á porta parava um estranho carro negro, linhas de cofre, todo crivado de buracos, lugubre e frio como um caixão. Sobre a tampa havia uma urna esculpida, meio coberta com um pano e toscamente executada. Um homem sentava-se na almofada; tinha o seu capote azul, o seu chapéo de oleado e a cara vulgar dos caleceiros nem maus nem bons, imbecilmente honrados. Outros dois, em mangas de camisa, traziam fardos de dentro, feitos de serapilheiras esburacadas, mendigas. O João mal reparou n’aquillo: tinha visto a casa baixa ao fundo da rampa gradeada: era alli que lhe mandavam deixar o Noticias. Foi lá. O velho estava em mangas de camisa almoçando café, á entrada. Era um corredor estreito para onde abriam oculos de vidro de pequenos compartimentos claros e cheios d’ar; a luz crua da manhã cahia do alto, pelas vidraças abertas. Ao fim do corredor, um altar negro frisado de douraduras, sahia da parede, e em cima um Christo de pau, entre velas intactas e cheias de moscas mortas, estendia os braços cylindricos, dourados a casquinha.

[3] Entrada para a Escóla medica, cozinhas, lavanderia, amphitheatro e mais dependencias hospitalares.

Um arame escuro, de algum timbre distante, riscava a brancura do tecto e unia outros arames convergidos de cada compartimento, como uma espinha de peixe. Oxydada e velha uma lampada de latão cahia de cima com a sua luz inutil na claridade diurna. Tudo aquillo era de um aspecto lugubre e frio através de que se sonhavam infortunios e allucinamentos. O João esteve a mirar tudo: estaria alli a mãi? Era o hospital—devia estar. E via o velho ensopar em café grandes pedaços de pão; olhava...

—Aqui está o jornal, disse. E ficou-se. Tinha ganas de perguntar pela mãi; acanhava-se. Ao fundo, a lampada pendia, como n’um nicho. O altar negro e frisado de ouro lembrava uma capella de jazigo. Tirou o barrete, reverente:

—Ó meu senhor...

—Que é? fez o velho. E tasquinhando—é o Noticias, hein? Aposto que traz o caso da sopeira dos Calafates!

—Ó meu senhor, isto aqui é igreja?

—É hospital: tu não vês?

—É hospital...

E a medo, uma anciedade intima: