—A minha mãi está ahi, está, meu senhor?

Tremiam-lhe os labios, e conhecia-se a dolorida expansão d’um amor de ave, implume e dôce, que descobriu amparo. O velho olhou-o com ironia, depois teve dó, um dó alarve, quasi insolente.

—Procura-a se queres, respondeu.

E o seu dedo escuro e cheio de nós apontava os oculos dos pequenos cubiculos, abertos sobre o corredor. O garoto entrou a medo, como n’uma igreja: como era baixo, não chegava aos vidros. Havia um banco: agarrou n’elle, assentou-o junto da primeira porta, subiu corajosamente com a pasta debaixo do braço. Esteve a olhar, a olhar.

—É um homem, disse elle. O guarda parára de comer; na dilatação da sua pupilla poder-se-hia adivinhar a alegria surpreza de quem vai pregar uma boa peça.

—É um homem, é, concordou.

—Dorme, coitadinho:—e penalisado—tão magro!... Tem filhos, meu senhor, tem?

O velho não respondeu. A esse tempo, já o pequeno tinha o banco ao pé da segunda porta e subia.

—É uma velha, notou elle. Olhe meu senhor, está-se a rir. Cada olho!

—Ri-se de ti talvez, commentou o guarda. E para o afastar do oculo:—Está doida; sahe d’ahi.