Sentava-me. A Lauriana vinha, sorrindo, servir-me; e o seu olho pardo, sequioso, acariciava a brancura do meu pescoço, appetecia os meus cabellos de um louro claro, tons insipidos, sob as abas do chapéo esburacado. O seu halito empestava a dez passos, trazido nas azas do seu amor quente e brutal, de uma infamia cheia de mercancia. Ouvindo-me pedir qualquer cousa, o olhar adoçava-se-lhe como o d’essas gatas a quem coçamos o craneo; e eu sentia exhalar-se d’ella um fartum de gorduras fundidas, que me perturbava. N’essa noite chegou o tio Farrusco.

Era coveiro e o mais asqueroso,—o da valla; aspecto repellente, perfil aspero e cortante, descarnadas as faces, as mãos aduncas e gastas, cheias de terra e de cabellos.

Sobre a testa, de uma pollegada de largo, cahiam grenhas fermentadas; as orelhas desappareciam-lhe sob a lã sebacea d’um barrete cinzento; por um rasgão da camisa, furava uma moita de cabellos hirsutos, brancos como um pé de junco sêcco, nascido entre as pedras d’um muro arruinado de azenha decrepita. Quasi lhe ficavam pelas esquinas a que se encostava, os farrapos em que embrulhava o corpo esqueletico e lustroso, como de couro curtido.

Um cabouqueiro tostado, perfil adunco de coruja, bateu-lhe no hombro.

—Tio Farrusco!

O outro tentou aprumar a estatura, lassa na molleza da embriaguez e resmungou:

—Que é lá isso, patêgo?—O seu olho envidraçado não podia fitar; fios de baba desciam-lhe lentos, aos cantos da bocca.

—Olá, fez o cabouqueiro; a maré encheu. E sacudia-o.

—Mais bebedo é vossê, grande cavalgadura!

Tentava caminhar; a sua sombra oscillava amplificada na parede, como a d’um ante-diluviano phenomenal, e quasi se não comprehendia bem como aquella cousa era um homem. Arrastou-se custosamente para um canto; ao passar por Zé Claudino tomou-lhe o copo, levou á bocca o vinho e esteve bebendo devagar. As gotas, d’um roxo sujo, cahiam-lhe pelas barbas. O nó da garganta subia-lhe e descia com vagarosos movimentos de embolo no cylindro d’uma bomba. Pousou o copo com ruido, com a manga da jaqueta limpou os beiços.