—De tudo quanto ha ruim elle será capaz, o carga d’ossos. Peste!

Apenas sahiu, o Ricardo pulou logo a parede para o quintal da visinha á cata do Manel, que tasquinhava pão secco de pansa para o ar.

—Vamos pró adro, o pai abalou.

Não foi preciso mais.

Foram ambos ás carreiras. No quintal, a Francisca roía o seu pão secco e negro, de semanas. A amassadura por pagar, uns fiados na loja do Vieira, trapos por toda a banda... Ao chegar a casa, o Estragado atirára-lhe um sôco ao vazio, pedindo o jantar para que não tinha dado feria. E cobrira-a de injurias obscenas diante dos filhos, exprobrando-lhe a fealdade e fraqueza.

Puxára-lhe até pelos cabellos, gritando com voz avinhada de cobarde:

—Grandessissima porca! grandessissima bebeda!

Dera-lhe bofetadas com a aspera mão ignobil de assassino, clamando que estava farto, que seria até capaz de a matar a punhadas. A pobresinha abatida e com o gesto errante, nem podia chorar. Aquella vida de vilezas e insultos roubára-lhe até o refugio das lagrimas, embotando-lhe pouco a pouco a razão. Abria os olhos sobre o bebedo n’um pasmo tremulo, dizendo baixinho:

—Não me batas mais, pelo amor de Deus, não me batas mais!

Resumia-se para ella tudo na sova e na escravidão muda do martyrio. Não tinha já mãi nem pai, haviam-lhe morrido os parentes.—Sua irmã fôra assassinada pelo marido n’uma azinhaga sinistra e de noite para os lados do Moinho Branco. Era a ultima representante d’uma raça de vergastados incapazes de resistencia e não sabendo na vida outro fim mais que a obediencia ao algoz e a procreação animal das marrãs de montado.