O coveiro olhava, sem comprehender, um pasmo idiota na face. Na penumbra da taberna, aquelle asqueroso vulto tinha uma expressão rembrantesca e crua, que fazia medo. O deboche nunca se concentrára tanto, podia-se jurar.

—Mas, tio Farrusco, a Ruiva vai melhor, hein?

—Melhor, melhor, gaguejou elle. Esta manhã vi-a estar dormindo... mais branca!—Pagas cambrainha[1], ó tyranno? Uma pessoa, c’os diabos, gosta de molhar a palavra. Quero lá saber!...

[1] Aguardente.

Tentava apoiar-se na banca, com as duas mãos tremulas. Ouviam-no cantarolar baixo, babando-se:

Foi fazer uma caçada

Á serra de Montalvão!

E com risadinhas pequenas e cruas, geladas, doidas, que produziam como o grito do estanho, aconchegou-se ao canto, para dormir, com circulos de cão vadio que se anicha. Todos procuravam espicaçal-o com uma chufa. Blasphemava-se em voz alta, uma riqueza inultrapassavel de obscenidades.

—A minha filha, resmungava o tio Farrusco. Querem saber da minha filha, da Ruiva... Sucia de tarimbeiros!...

Foi fazer uma caçada