—Que é isso?

—Não se esqueça da manasinha, não?

—Já a encommendei, descança.


No dia seguinte, quasi duas horas da tarde, bateram á porta e a criada veio dizer que estava um senhor de idade. Maria do Resgate foi vêr. Apenas ella appareceu, um homem já ruço depôz no corredor uma pequena mala de coiro, e abrindo os braços estreitou com a maior franqueza a pobre rapariga, pespegando-lhe tres beijos muito repenicados nas bochechas.

—Querida sobrinha! querida sobrinha! fazia elle repetindo os abraços, com uma ternura que os seus cabellos brancos tornavam honesta. E detendo-se a notar o embaraço e o rubor da pobre mãi, observou:

—Tu não me conheces, hein? E toda espantada a olhares para mim? Eh! Sou o tio Sabino Pancada, o do Pará, o que escreveu ha duas semanas. Não te mandei um retrato; vê lá se estava parecido, olha bem.

Mais risonha já, Maria do Resgate levou-o para a saleta, bem ao pé da janella, e esteve a miral-o. Era homem alto e magro, maçãs salientes e enormes suiças em cypreste, oculos escuros e cabello á escovinha. Tinha as grossas mãos d’um trabalhador, dedos nodosos e unhas chatas, o olho sereno dos fortes e a pelle requeimada.

—Pois é o tio? disse ella adoravelmente. Ah como estou contente em o vêr, não faz idéa. Tanto que lhe devemos, tanto! Succedeu justamente o que o Alfredo pensava... justamente! Uma cousa assim, não.

—Então que pensava meu sobrinho?