Tenho ódio á luz e raiva á claridade
Do sol, alegre, quente, na subida.
Parece que a minh'alma é perseguida
Por um carrasco cheio de maldade!
Ó minha vã, inutil mocidade
Trazes-me embriagada, entontecida!...
Duns beijos que me déste, noutra vida,
Trago em meus lábios rôxos, a saudade!...
Eu não gosto do sol, eu tenho medo
Que me leiam nos olhos o segrêdo
De não amar ninguem, de ser assim!
Gosto da Noite imensa, triste, preta,
Como esta extranha e doida borboleta
Que eu sinto sempre a voltejar em mim!...

Sem remédio

SEM REMÉDIO

Aqueles que me teem muito amôr
Não sabem o que sinto e o que sou...
Não sabem que passou, um dia, a Dôr,
Á minha porta e, nesse dia, entrou.
E é desde então que eu sinto êste pavôr,
Este frio que anda em mim, e que gelou
O que de bom me deu Nosso Senhor!
Se eu nem sei por onde ando e onde vou!!
Sinto os passos da Dôr, essa cadência
Que é já tortura infinda, que é demência!
Que é já vontade doida de gritar!
E é sempre a mesma mágua, o mesmo tédio,
A mesma angústia funda, sem remédio,
Andando atraz de mim, sem me largar!...

Mais triste

MAIS TRISTE

É triste, diz a gente, a vastidão
Do Mar imenso! E aquela voz fatal
Com que êle fala, agita o nosso mal!
E a Noite é triste como a Extrema Unção!
É triste e dilacera o coração
Um poente do nosso Portugal!
E não veem que eu sou... eu... afinal,
A coisa mais maguada das que o são?!...
Poentes d'agonia trago-os eu
Dentro de mim e tudo quanto é meu
É um triste poente d'amargura!
E a vastidão do Mar, toda essa agua
Trago-a dentro de mim num Mar de Mágua!
E a Noite sou eu própria! A Noite escura!!

Velhinha

VELHINHA

Se os que me viram já cheia de graça
Olharem bem de frente para mim,
Talvez, cheios de dôr, digam assim:
«Já ela é velha! Como o tempo passa!...»
Não sei rir e cantar por mais que faça!
Ó minhas mãos talhadas em marfim,
Deixem esse fio d'oiro que esvoaça!
Deixem correr a vida até ao fim!
Tenho vinte e tres anos! Sou velhinha!
Tenho cabelos brancos e sou crente...
Já murmuro orações... falo sòsinha...
E o bando côr de rosa dos carinhos
Que tu me fazes, olho-os indulgente,
Como se fosse um bando de nètinhos...