VAIDADE

Sonho que sou a Poetisa eleita,
Aquela que diz tudo e tudo sabe,
Que tem a inspiração pura e perfeita,
Que reúne num verso a imensidade!
Sonho que um verso meu tem claridade
Para encher todo o mundo! E que deleita
Mesmo aqueles que morrem de saudade!
Mesmo os de alma profunda e insatisfeita!
Sonho que sou Alguem cá neste mundo...
Aquela de saber vasto e profundo,
Aos pés de quem a terra anda curvada!
E quando mais no ceu eu vou sonhando,
E quando mais no alto ando voando,
Acordo do meu sonho...

E não sou nada!...

Eu...

EU...

Eu sou a que no mundo anda perdida,
Eu sou a que na vida não tem norte,
Sou a irmã do Sonho, e desta sorte
Sou a crucificada... a dolorida...
Sombra de névoa ténue e esvaecida,
E que o destino amargo, triste e forte,
Impele brutalmente para a morte!
Alma de luto sempre incompreendida!...
Sou aquela que passa e ninguem vê...
Sou a que chamam triste sem o sêr...
Sou a que chora sem saber porquê...
Sou talvez a visão que Alguem sonhou,
Alguem que veio ao mundo p'ra me vêr,
E que nunca na vida me encontrou!

Castelã da Tristêsa

CASTELÃ DA TRISTÊSA

Altiva e couraçada de desdem,
Vivo sòsinha em meu castelo: a Dôr!
Passa por êle a luz de todo o amôr....
E nunca em meu castelo entrou alguem!
Castelã da Tristêsa, vês?... A quem?!...
—E o meu olhar é interrogadôr—
Perscruto, ao longe, as sombras do sol-pôr...
Chora o silêncio... nada... ninguem vem...
Castelã da Tristêsa, porque choras
Lendo, toda de branco, um livro de oras,
Á sombra rendilhada dos vitrais?...
Á noite, debruçada p'las ameias,
Porque rezas baixinho?... Porque anseias?...
Que sonho afagam tuas mãos reais?...

Tortura