TORTURA
Tirar dentro do peito a Emoção,
A lucida Verdade, o Sentimento!
—E ser, depois de vir do coração,
Um punhado de cinza esparso ao vento!...
Sonhar um verso d'alto pensamento,
E puro como um rythmo d'oração!
—E ser, depois de vir do coração,
O pó, o nada, o sonho dum momento!...
São assim ôcos, rudes, os meus versos:
Rimas perdidas, vendavaes dispersos,
Com que eu iludo os outros, com que minto!
Quem me déra encontrar o verso puro,
O verso altivo e forte, extranho e duro,
Que dissesse, a chorar, isto que sinto!!
Lágrimas ocultas
LÁGRIMAS OCULTAS
Se me ponho a scismar em outras éras
Em que ri e cantei, em que era qu'rida,
Parece-me que foi noutras esféras,
Parece-me que foi numa outra vida...
E a minha triste bôca dolorida
Que dantes tinha o rir das primavéras,
Esbate as linhas graves e severas
E cae num abandôno de esquecida!
E fico, pensativa, olhando o vago...
Toma a brandura plácida dum lago
O meu rôsto de monja de marfim...
E as lágrimas que choro, branca e calma,
Ninguem as vê brotar dentro da alma!
Ninguem as vê cair dentro de mim!
Torre de névoa
TORRE DE NÉVOA
Subi ao alto, á minha Torre esguia,
Feita de fumo, névoas e luar,
E puz-me, comovida, a conversar
Com os poetas mortos, todo o dia.
Contei-lhes os meus sonhos, a alegria
Dos versos que são meus, do meu sonhar,
E todos os poetas, a chorar,
Responderam-me então: «Que fantasia,
Creança doida e crente! Nós tambêm
Tivemos ilusões, como ninguem,
E tudo nos fugiu, tudo morreu!...»
Calaram-se os poetas, tristemente...
E é desde então que eu choro amargamente
Na minha Torre esguia junto ao Ceu!...