A Você
A minha Dôr é um convento ideal
Cheio de claustros, sombras, arcarias,
Aonde a pedra em convulsões sombrias
Tem linhas dum requinte escultural.
Os sinos teem dobres d'agonias
Ao gemer, comovidos, o seu mal...
E todos teem sons de funeral
Ao bater horas, no correr dos dias...
A minha Dôr é um convento. Ha lírios
Dum roxo macerado de martírios,
Tão belos como nunca os viu alguem!
Nesse triste convento aonde eu móro,
Noites e dias reso e grito e chóro!
E ninguem ouve... ninguem vê... ninguem...
Dizêres íntimos
DIZÊRES INTIMOS
É tão triste morrer na minha idade!
E vou ver os meus olhos, penitentes
Vestidinhos de rôxo, como crentes
Do soturno convento da Saudade!
E logo vou olhar (com que ansiedade!...)
As minhas mãos esguias, languescentes,
De brancos dedos, uns bébés doentes
Que hão de morrer em plena mocidade!
E ser-se novo é ter-se o Paraiso,
É ter-se a estrada larga, ao sol, florida,
Aonde tudo é luz e graça e riso!
E os meus vinte e tres anos... (Sou tão nova!)
Dizem baixinho a rir: «Que linda a vida!...»
Responde a minha Dôr: «Que linda a cova!»
As minhas Ilusões
AS MINHAS ILUSÕES
Hora sagrada dum entardecer
D'Outono, á beira mar, côr de safira.
Sôa no ar uma invisivel lira...
O sol é um doente a enlanguescer...
A vaga estende os braços a suster,
Numa dôr de revolta cheia de ira,
A doirada cabeça que delira
Num último suspiro, a estremecer!
O sol morreu... e veste luto o mar...
E eu vejo a urna d'oiro, a baloiçar,
Á flôr das ondas, num lençol d'espuma!
As minhas Ilusões, dôce tesoiro,
Tambem as vi levar em urna d'oiro,
No Mar da Vida, assim... uma por uma...