Sinto hoje a alma cheia de tristesa!
Um sino dobra em mim, Ave Marias!
Lá fôra, a chuva, brancas mãos esguias,
Faz na vidraça rendas de Venesa...
O vento desgrenhado, chora e resa
Por alma dos que estão nas agonias!
E flocos de neve, aves brancas, frias,
Batem as azas pela Natureza...
Chuva... tenho tristesa! Mas porquê?!
Vento... tenho saudades! Mas de quê?!
Ó neve que destino triste o nosso!
Ó chuva! Ó vento! Ó neve! Que tortura!
Gritem ao mundo inteiro esta amargura,
Digam isto que sinto que eu não posso!!...
Pequenina
PEQUENINA
Á Maria Helena Falcão Risques
És pequenina e ris... A bôca breve
É um pequeno idílio côr de rosa...
Haste de lírio frágil e mimosa!
Cofre de beijos feito sonho e neve!
Dôce quimera que a nossa alma deve
Ao Ceu que assim te fez tão graciosa!
Que nesta vida amarga e tormentosa
Te fez nascer como um perfume leve!
O ver o teu olhar faz bem á gente...
E cheira e sabe, a nossa bôca, a flôres
Quando o teu nome diz, suavemente...
Pequenina que a Mãe de Deus sonhou,
Que ela afaste de ti aquelas dôres
Que fizeram de mim isto que sou!
A Maior Tortura
A MAIOR TORTURA
A um grande poeta de Portugal
Na vida, para mim, não ha deleite.
Ando a chorar convulsa noite e dia...
E não tenho uma sombra fugidía
Onde poise a cabeça, onde me deite!
E nem flôr de lilaz tenho que enfeite
A minha atroz, imensa nostalgia!...
A minha pobre Mãe tão branca e fria
Deu-me a beber a Magua no seu leite!
Poeta, eu sou um cardo despresado,
A urze que se pisa sob os pés.
Sou, como tu, um riso desgraçado!
Mas a minha tortura inda é maior:
Não ser poeta assim como tu és,
Para gritar num verso a minha Dôr!...