A FLÔR DO SONHO

A Flôr do Sonho alvissima, divina
Miraculosamente abriu em mim,
Como se uma magnolia de setim
Fosse florir num muro todo em ruina.
Pende em meio seio a haste branda e fina
E não posso entender como é que, emfim,
Essa tão rara flôr abriu assim!...
Milagre... fantasia... ou talvez, sina...
Ó Flôr que em mim nascêste sem abrolhos,
Que tem que sejam tristes os meus olhos
Se eles são tristes pelo amôr de ti?!...
Desde que em mim nascêste em noite calma,
Voou ao longe a aza da minh'alma
E nunca, nunca mais eu me entendi...

Noite de Saudade

NOITE DE SAUDADE

A Noite vem poisando devagar
Sobre a terra que inunda de amargura...
E nem sequer a benção do luar
A quiz tornar divinamente pura...
Ninguem vem atraz dela a acompanhar
A sua dôr que é cheia de tortura...
E eu oiço a Noite imensa soluçar!
E eu oiço soluçar a Noite escura!
Porque és assim tão 'scura, assim tão triste?!
É que, talvez, ó Noite, em ti existe
Uma Saudade egual á que eu contenho!
Saudade que eu nem sei donde me vem...
Talvez de ti, ó Noite!... Ou de ninguem!...
Que eu nunca sei quem sou, nem o que tenho!!

Angustia

ANGUSTIA

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos déra calar a tua voz!
Quem nos déra cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!
E não se quer pensar!... E o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Qu'rer apagar no Ceu—Ó sonho atroz!—
O brilho duma estrela, com o vento!...
E não se apaga, não... nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando. «O que te resta?...»
Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!

Amiga

AMIGA