[ANOITECER]
A luz desmaia num fulgor d'aurora,
Diz-nos adeus religiosamente...
E eu que não creio em nada, sou mais crente
Do que em menina, um dia, o fui... outr'ora...
Não sei o que em mim ri, o que em mim chora,
Tenho bênçãos d'amor p'ra toda a gente!
E a minha alma sombria e penitente
Soluça no infinito desta hora...
Horas tristes que são o meu rosário...
Ó minha cruz de tão pesado lenho!
Ó meu áspero e intérmino Calvario!
E a esta hora tudo em mim revive:
Saudades de saudades que não tenho...
Sonhos que são os sonhos dos que eu tive...
[ESFINGE]
Sou filha da charneca erma e selvagem:
Os giestais, por entre os rosmaninhos,
Abrindo os olhos d'oiro, p'los caminhos,
Desta minh'alma ardente são a imagem.
E anciosa desejo—ó vã miragem—
Que tu e eu, em beijos e carinhos,
Eu a Charneca, e tu o Sol, sòsinhos,
Fossemos um pedaço da paisagem!
E á noite, á hora dôce da ansiedade,
Ouviria da boca do luar
O De Profundis triste da saudade...
E, á tua espera, enquanto o mundo dorme,
Ficaria, olhos quietos, a scismar...
Esfinge olhando, na planicie enorme...