[TARDE DEMAIS...]
Quando chegáste emfim, para te vêr
Abriu-se a noite em mágico luar;
E p'ra o som de teus passos conhecer
Pôz-se o silencio, em volta, a escutar...
Chegáste, emfim! Milagre de endoidar!
Viu-se nessa hora o que não pode ser:
Em plena noite, a noite iluminar
E as pedras do caminho florescer!
Beijando a areia d'oiro dos desertos
Procurára-te em vão! Braços abertos,
Pés nús, olhos a rir, a bôca em flôr!
E ha cem anos que eu era nova e linda!...
E a minha bôca morta grita ainda:
Porque chegáste tarde, ó meu Amôr?!...
[CINZENTO]
Poeiras de crepúsculos cinzentos.
Lindas rendas velhinhas, em pedaços,
Prendem-se aos meus cabelos, aos meus braços,
Como brancos fantasmas, sonolentos...
Monges soturnos deslisando lentos,
Devagarinho, em misteriosos passos...
Perde-se a luz em languidos cansaços...
Ergue-se a minha cruz dos desalentos!
Poeiras de crepúsculos tristonhos,
Lembram-me o fumo leve dos meus sonhos,
A névoa das saudades que deixáste!
Hora em que o teu olhar me deslumbrou...
Hora em que a tua boca me beijou...
Hora em que fumo e névoa te tornáste...