[NOTURNO]
Amor! Anda o luar, todo bondade,
Beijando a terra, a desfazer-se em luz...
Amor! São os pés brancos de Jesus
Que andam pisando as ruas da cidade!
E eu ponho-me a pensar... Quanta saudade
Das ilusões e risos que em ti puz!
Traçáste em mim os braços duma cruz,
Nêles pregaste a minha mocidade!
Minh'alma, que eu te dei, cheia de máguas,
É nesta noite o nenufar dum lago
Estendendo as azas brancas sobre as águas!
Poisa as mãos nos meus olhos, com carinho,
Fecha-os num beijo dolorido e vago...
E deixa-me chorar devagarinho...
[MARIA DAS QUIMÉRAS]
Maria das Quiméras me chamou
Alguem... Pelos castelos que eu ergui,
P'las flores d'oiro e azul que a sol teci
Numa téla de sonho que estalou.
Maria das Quiméras me ficou;
Com elas na minh'alma adormeci.
Mas, quando despertei, nem uma vi,
Que da minh'alma, Alguem, tudo levou!
Maria das Quiméras, que fim déste
Ás flores d'oiro e azul que a sol bordáste,
Aos sonhos tresloucados que fizéste?
Pelo mundo, na vida, o que é que esperas?...
Aonde estão os beijos que sonháste,
Maria das Quiméras, sem quiméras?