[CREPÚSCULO]

Teus olhos, borboletas de oiro, ardentes
Borboletas de sol, de azas maguadas,
Poisam nos meus, suaves e cançadas,
Como em dois lirios rôxos e dolentes...

E os lirios fecham... Meu amôr não sentes?
Minha bôca tem rosas desmaiadas,
E as minhas pobres mãos são maceradas
Como vagas saudades de doentes...

O Silencio abre as mãos... entorna rosas...
Andam no ar caricias vaporosas
Como pálidas sedas, arrastando...

E a tua boca rubra ao pé da minha
É na suavidade da tardinha
Um coração ardente, palpitando...

[ODIO?]

Á Aurora Aboim

Odio por ele? Não... Se o amei tanto,
Se tanto bem lhe quiz no meu passado,
Se o encontrei depois de o ter sonhado,
Se á vida assim roubei todo o encanto...

Que importa se mentiu? E se hoje o pranto
Turva o meu triste olhar, marmorisado,
Olhar de monja, trágico, gelado
Como um soturno e enorme Campo Santo!

Ah! nunca mais amá-lo é já bastante!
Quero senti-lo d'outra, bem distante,
Como se fôra meu, calma e serena!