Amar-te a vida inteira eu não podia.
A gente esquece sempre o bem dum dia.
Que queres, meu Amôr, se é isto a Vida!...
[HORAS RUBRAS]
Horas profundas, lentas e caladas
Feitas de beijos sensuais e ardentes,
De noites de volupia, noites quentes
Onde ha risos de virgens desmaiadas...
Oiço as olaias rindo desgrenhadas...
Tombam astros em fogo, astros dementes,
E do luar os beijos languescentes
São pedaços de prata p'las estradas...
Os meus lábios são brancos como lagos...
Os meus braços são leves como afagos,
Vestiu-os o luar de sedas puras...
Sou chama e neve branca e misteriosa...
E sou, talvez, na noite voluptuosa,
Ó meu Poeta, o beijo que procuras!
[SUAVIDADE]
Poisa a tua cabeça dolorida
Tão cheia de quiméras, de ideal,
Sobre o regaço brando e maternal
Da tua doce Irmã compadecida.
Has de contar-me nessa voz tão qu'rida
A tua dôr que julgas sem igual,
E eu, p'ra te consolar, direi o mal
Que á minha alma profunda fez a Vida.
E has de adormecer nos meus joelhos...
E os meus dedos enrugados, velhos,
Hão de fazer-se leves e suaves...