Em infantaria 10 as cousas passaram-se d'outro modo. Ahi a guarda ao quartel, composta d'um cabo e varios soldados conseguiu, ás primeiras ameaças, que os officiaes não tentassem sequer empregar a sua auctoridade hierarchica para a demover do proposito em que se encontrava. Todos elles, percebendo a inutilidade de qualquer esforço n'esse sentido, dirigiram-se á casa do commandante do regimento e só mais tarde, quando a revolta se considerou completamente suffocada é que conseguiram submetter a guarda do quartel e as praças que retiravam da lucta que se travara.

Mas, facto digno de registo: tanto n'um como n'outro quartel não se produziram violencias—aliás comprehensiveis n'um momento como esse de fundamentada agitação e irresistivel anormalidade. Violou-se é certo, a disciplina. Nem a revolução era possivel sem esse delicto. Mas ninguem faltou ao respeito individual pelos officiaes que não quizeram adherir ao movimento.[{121}]

CAPITULO XVII

A noite negra do traidor Castro
O destino de trez officiaes

Relatados assim os factos que caracterisaram essencialmente a revolta, desde o primeiro viva á Republica soltado pelo sargento Abilio até á reconquista dos paços do concelho pela guarda municipal victoriosa, não é demais uma referencia embora ligeira ao homem que, atraiçoando os seus camaradas, contribuiu de algum modo para que a noticia do movimento se divulgasse prematuramente e o contrariasse em mais d'um ponto. Esse homem, já o dissemos n'outro logar d'esta desataviada narrativa, foi o sargento Castro.

«Tendo assistido á reunião da rua do Laranjal—contou elle em conselho de guerra, depondo como testemunha accusatoria dos implicados na revolta—vi, com espanto, que se tratava d'uma representação dos sargentos ao governo, elaborada em termos taes, que era mais uma ameaça do que um pedido. Á reunião presidiu o alferes Simões Trindade. Pretendi tomar a palavra, para combater a forma como fora escripto esse documento, mas a maioria dos assistentes abafou as minhas palavras e eu retirei-me do local. No dia seguinte ao da reunião, procurei o capitão Sarsfield e narrei-lhe o succedido, para evitar que mais tarde me calumniassem...»

Mas a delação do sargento Castro não ficou por aqui. Provocando com essa narrativa ao capitão Sarsfield as perseguições que as auctoridades militares moveram dias antes da revolta aos officiaes inferiores da guarnição do Porto, o traidor, na tarde[{122}] do dia 30, voltou a avisar aquelle capitão de que o movimento rebentaria na madrugada do dia seguinte. Fez a denuncia e sahiu do quartel do 18, disposto a não tornar a entrar lá dentro, porque receiava justamente que os seus camaradas de regimento, sabedores do seu acto ignobil, lhe arrancassem a pelle. Ás 11 da noite, porem, como tivesse deixado ficar no edificio a guia de marcha para Lisboa—o sargento Castro fora mandado apresentar com urgencia no ministerio da guerra—arriscou-se a penetrar novamente alli e falou ao capitão Fumega, que era o official de inspecção. O capitão, mal o viu, aconselhou-o a que se retirasse, accrescentando:

—Olhe que a sua vida corre perigo... Alguns sargentos querem matal-o por não haver adherido á conjura...

—Não tenho medo, respondeu o traidor, encaminhando-se para a secretaria.

Nessa dependencia do quartel estavam reunidos o coronel Lencastre de Menezes e o capitão Sarsfield. O coronel dirigiu ao sargento Castro conselho identico ao que já lhe dera o official de inspecção: