—O senhor desappareça do edificio, porque a sua presença aqui pode provocar um conflicto grave...
—Vim buscar a guia de marcha, replicou o traidor.
—Isso é o mesmo... Diga onde quer que eu lh'a mande amanhã de manhã...
O sargento Castro obedeceu. E abandonando o quartel foi tomar café. Depois como se fazia tarde, lembrou-se de ir dormir a uma hospedaria da praça de Santa Thereza. Quando parou á porta, principiava a accentuar-se nas ruas o movimento das tropas insurrecionadas. Tremeu de medo. O seu acto infame seria, indubitavelmente castigado e castigado com rigor, pelas forças que aclamavam a Republica.[{123}] Receiando que o vissem e lhe pedissem estreitas contas da delação foi para a esquadra dos Carmelitas e alli supplicou que o não entregassem aos revoltados pelos motivos acima expostos e que reproduziu entre lamentos cobardes ao commandante da força policial.
Durante hora e meia, conservou-se recolhido n'esse abrigo, estremecendo a cada ruido indicativo da victoria dos insurrectos. Passado esse tempo veiu ordem do quartel do Carmo para toda a policia da esquadra dos Carmelitas—como das outras esquadras—auxiliar as evoluções das tropas fieis á monarchia. A esquadra ficou deserta. Cheio de terror, sentindo-se isolado no transe mais angustioso da sua vida, o sargento Castro acabou por tambem abandonar a esquadra e foi para o quartel do Carmo, onde suppunha estar em maior segurança. Ahi, apresentou-se ao official de inspecção e este vendo que elle ainda não tinha seguido para Lisboa, apesar da ordem urgente que recebera, prendeu-o incommunicavel e, no dia immediato, fel-o transportar para bordo da corveta Sagres. Na corveta detiveram-no por vinte e quatro horas e só o puzeram em liberdade quando o commandante do 18, intercedendo em seu favor, informou as outras auctoridades militares do papel repugnante que o prisioneiro desempenhara na insurreição...
Fechemos aqui a historia do traidor Castro e sigamos o destino dos trez officiaes combatentes que se salientaram nas diversas phases do movimento revolucionario. O capitão Leitão, acabada a lucta na casa da Camara, refugiou-se nas proximidades do quartel de infantaria 10 e ás 8 da noite de 31 foi ao domicilio do tenente Coelho que ahi se acolhera apoz a derrota. O tenente Coelho, surpreso, de o ver, exclamou:[{124}]
—Como, pois tu aqui?
—É verdade, replicou o valente official. Que fazer agora?
—Meu caro, ou fugir ou apresentarmo-nos no quartel general. Para o caso de nos expatriarmos é preciso dinheiro que eu não tenho...
—Nem eu. Comtudo, talvez um amigo m'o empreste.