D'UM ALUMNO MILITAR
que em 1872 foi expulso do Lyceu de Lisboa por não haver restituido a outro alumno um livro que lhe pedira emprestado
Misericordia!... Um rapaz
sem reflexão e sem tino, que
é da milicia e inda traz
reles buço de menino,brincando pede e sonega
um mau livro a um mau collega.
O facto é grave! A moral
traja luto!... Esta noticia
corre por maneira tal
que até chegou á policia!
Desloca a pedra angular
do social edificio!...
Cheira a Communa!... Pelo ar,
em busca d'um outro officio,
paira e pia a disciplina!...
Ai de nós! que é certa a ruina
se um braço potente e audaz
não suspende o cataclysmo!...
Corte-se fundo o antraz!
Dôa e pelle o sinapismo!
Assim se fez. Lá no ceu
ha quem nos proteja ainda.
A lei pune. O infame reu
cae prostrado, e o p'rigo finda.
Sabia a lei no monstro fere
Cartouche e Robert Macaire.N'um golpe os reduz a pó!
Da dupla calamidade,
descascando um ovo só,
livra e salva a humanidade!
Os relaxados sandeus
dizem:—Não valia a pena.—
Mas é que a Lei, pygmeus,
não raciocina, condemna.
E raciocinasse!... O pepino
não se torce em pequenino?
Aprender nos livros quiz?
Quiz illustrar a sua farda?
Fique burro, que o paiz
gosta que o sirvam d'albarda.
A vergonha, a nodoa, o que é?
O que foi sempre. Esta é fina!
Um pinguinho de rapé
que se tira com benzina:
um nada... que inhabilita:
a letra fatal escripta
com ferro em braza na mão!
E n'este abysmo se lançasem piedade e sem razão
uma inconsciente creança!...
Melhor livro alguem pilhou
sem ninguem lhe gritar:—Larga!—
Lambeu; os beiços limpou;
e poz-se de mão na ilharga!
Não! que o melro d'alto canta!
e quando ás vezes se espanta
fazem-no Deus, tal crereis?
Uno e bis trino,—isto é sério,
pois sendo os ministros seis
é só elle um ministerio!
O supplicante, senhor,
cartista puro, em presença
dos factos que vem de expôr,
pede o indulto e a recompensa
que o pobre rapaz merece.
É fundada a sua prece
em ser a Lei coisa igual:
e, sendo, já me contento,
se não póde ser mar'chal
façam-no ao menos sargento.
PROCESSO
1875
LIBELLO
Le cynisme de l'apostasie.
(Berryer).
Que graçolas são essas, senhor Palha?
Que estulto riso sobre tudo espalha?
Costuma attribuir-se a pouco siso
O séstro folião do eterno riso.
E cuidou tirar joias d'um thesouro?
Cuidou ter dito bocadinhos d'ouro?Pilherias de matar, chistes d'arromba?
Pois nunca embalde co'a razão se zomba,
E com ella zombou no seu escripto.
Uma coisa é espirito, outra esprito.
Já vê que me refiro á carta-asneira
Abrindo aos disparates a torneira
Nas illustres columnas do Illustrado.
Quanto fôra melhor estar calado!
A defeza enterrou-lhe a protegida,
Ha patronos assim; hoje é perdida
A causa da Madama. Andou de leve
Em tudo quanto disse, e nunca teve
Hora mais infeliz. Veja: primeiro
O seu grande argumento é—dá dinheiro!Que miseria inaudita! D'esse modo
Bota abaixo a moral do mundo todo.
Ó venenos subtis, ó ferros finos,
Quem maldirá a mão dos assassinos
Se vós rendeis milhões? Ó lupanares
Da vil prostituição, nos seus cantares
Passou-vos Palha carta de limpeza.
Lucraes muito por dia? Santa empreza.
Não quer saber de mais; o merecimento
Afére-o pelo ganho; isto é nojento.
A moral, a virtude, que lhe importa?
O caso está em quanto rende a porta,
A corrupção geral é que o deleita
Dês que possa ser fonte de receita.A arte mascarou-se em traficante,
A arte é chilrear e vêr sonante.
E houve quem berrasse, e inda hoje berra,
Contra o barbaro interesse da Inglaterra
Envenenando a China? Que patetas!
Não haviam mugir á vacca as tetas?
Se vem sangue no tarro que tem isso?
O sangue tambem faz bello chouriço.
E fresquinha a Madama, e curto o fato?
Diz elle que o reparo é caricato.
Pois quanto mais a filha mostra a perna
E a linguagem mais cheira a taberna
Mais acode o concurso hoje em Lisboa
Que até na côrte, em gripho, inda resôa
A fama de Cascaes e os lindos fadosQue por lá se dançaram, e os trinados
Da banza afidalgada; haja folgança
Que n'este mundo ha só prazer e pança.
Na insulsa peça o Palha chocarreiro
Só dá voto de peso ao bilheteiro;
Com este é tudo bom. Frivolidades,
Phrases regateiraes, e necedades;
A praça da Figueira, emfim, na scena,
Sem um dito sequer que faça pena
De não lembrar depois; eis o encanto
Do Palha da Trindade; e faz-lhe espanto
Que os da Nação não saltem d'alegria,
E ratos diz que são de Sacristia...Alto lá, senhor Palha, mais decencia.
Não se emporcalhe assim Vossa Excellencia.
Não bula na Nação, que o trouxe ao collo,
Que passa por ingrato, além de tolo.
Pois não andou por lá de noite e dia?
Não foi rato tambem na sacristia?
Então o dizer mal mui mal lhe fica;
Embora n'outra parte arme a futrica.
O bonito é caluda. Se hoje adora
O que d'antes queimára, rôa agora
Nas lonas do theatro, chupe azeite
Dos candieiros da rampa, mas não deite
Só por na corrupção viver contente
Má fama da que fôra sua gente.
Que mal lhe fez á bolsa, em que só pensa,
A antiga tradição, a antiga crença?
Desertou; e bem viu que foi tranquillo,
Nenhum tiro se deu a perseguil-o,
Nenhuma voz se ergueu bradando—raca—,
Nem ninguem lhe puxou pela casaca.
Virou-a como quiz; e nem as trovas
D'aquelle José Paes de Torres NovasNinguem lhe recordou: assim, nem pio,
Que mais calvo o farão, e inda faz frio.
Se seu honrado pae resuscitasse
Como o rubor lhe subiria á face
Vendo o filho truão na patria cara
Cuspir injurias, com facecia ignara;Vendo o filho nos tempos em que vamos
Morder insano a procissão de Ramos!
Que tem, que póde ter gambia obscena,
Em anzol de patacos sobre a scena,
Com pia procissão, qualquer que seja,
Dês que tem por escudo a Santa Egreja?
Como o tal velho Palha encresparia
O sobr'olho a toda esta porcaria?
Vêr seu filho gabando os assobios
D'amoladinhos vãos e de vadios;
Censurar a gravata séria e lisa;
O pé fresco exaltar; gente em camisa;
Ser-lhe, emfim, tudo antigo de quizilia
E comicos só ter como familia!...
Ó manes venerandos e embécadosDos Desembargadores, sois trocados
Na voz do filho e neto, em sêde d'ouro,
Por titeres do palco! Forte estouro
Levava o tal amigo se surgia
Toda a Palha anciã, se não morria
De vergonha outra vez, que é coisa dura
Ver por nossos mordida a sepultura!
Mas basta, senhor Palha, e se inda a fome
Lhe exige mais roer, roa em seu nome.