CONTRARIEDADE

.......... e nunca teve
Hora mais infeliz.....

(V. Exc.ª mesmo).

Cantor das duzias, teu rosto
porque é que encobres assim?
Quem és tu? Es Arlequim?
Es o Furioso de Ariosto?
Es o Roberto Pimpim?
És um anão Torquemada
com pretensões a Vestal,
fructo da copla carnal
do author da Besta esfoladae do esfolado animal?...
Não és coisa alguma d'estas?
Então, ó santinho, o que és?
Pedes p'r'a missa das dez,
ou tocas órgão nas festas
e dás aos folles co'os pés?
Pela linguagem rasteira
comtigo decerto dou.
Se pae não és, és avô
da que chamas regateira,
da propria filha da Angot.
E a neta engeitas?... e á neta
condemnas a phrase chã?
Que cheira mal a hortelã
dizêl-o póde, pateta,
a vil cebola albarrã?
É franca? P'ra sempre o seja.
Vale mais ter esse dom
que ser beato e maçon
e berrar que é contra a Egreja
colhér e trolha!... Chiton!
Mostra uma perna? Essa é boa!
Olhem lá co'o que elle vem!
Mostrou uma? Pois tambem
você percorre Lisboa
mostrando as quatro que tem.
Ó sociedade corrupta!...
Ó moralista infeliz!...
que viste a perna da actriz
e em vez de beber cicuta
vaes beber... ao chafariz!
Eu sei que o mundo é doente.
Tem um scirro que o corroe.
Além d'isso ao fraco heroe
doe-lhe inda a raiz do dente
que foi arrancar a Alcoy.
Ao mais pequeno symptoma
que indique augmento do mal
recresce a faina geral.
Com papas lhe acode Roma
na região temporal;
Dá-lhe sangrias Castella;
põe-lhe um cauterio o allemão,
emquanto mata o capão
e ferve á pressa a panella
a Italia no seu vulcão.
Em França a magna assemblea
revôlta, ignara, loquaz,
discute se é agua raz
ou se é forca a panacea
n'este momento efficaz.
Seguindo o fraterno impulso,
o frio, sizudo inglez
chega-se ao leito do endez
e diz, tomando-lhe o pulso:
Inda não vae d'esta vez.
E o pai da magra Siberia,
o grande doutor Moscow,
da casa de Deus avô
brama:—Pois se a coisa é séria,
ó rapazinhos, lá vou.

Mas tu co'os teus alfarrabios
e com teu surriso alvar
é vêr, apalpar, e... obrar.
Podera! Que valem sabios
onde apparece o alveitar?...
Assim, receitas á antiga:
«Dois grãos de moral... de Adão,
que andou nú e foi burlão.
Com elles faça uma figa,
raspe, e metta de infusão.
«Deite depois disciplinas
com ponta de pita e nó.
Misture São Pedro em pó,
e co'as minhas proprias clinas
fomente o enfermo sem dó.
«Note bem. Rigor na dieta
de acepipes liberaes.
Não cheirar sequer jornaes.
Se a cura for incompleta
dê-lhe mais... e mais... e mais!»
O mau, o peior, o diabo,
ó cego Miramolim,
é que essa droga ruim
por um triz que já deu cabo
do mundo vezes sem fim.
Não faças mais medicina
que o tempo gastas em vão;
e, se és tolo ou charlatão,
grunhe contra a tua sina,
mas contra mim, isso não.
Porque andei lá na botica
de avantal e braços nús,
porque os xaropes compuz,
mais e mais se justifica
meu tédio pelo alcaçuz.
E se a Nação me deu mama,
se ao collo trazer-me quiz,
porque estranhas se lhe eu fiz
no regaço e p'ra tal ama
o que faz todo o petiz?!
Sob a campa que os encerra
deixa tranquillos os meus.
Não chames, rei dos pygmeus,
para as contendas da terra
aquelles que estão com Deus.
Do seu tempo honradamente
seguiram costume e lei.
Com ser do meu provarei
que amo a patria, a minha gente,
e o seu exemplo imitei.
E se algum, velha maluca,
surgisse da eterna paz,
de provar-me era incapaz,
que os olhos estão na nuca;
que o direito é andar p'ra traz.

SENTENÇA

Estes autos correndo folha a folha,
d'elles fica provado á saciedade
que tem bolha a Nação, e que tem bolha
o Palha da Trindade.
Marfára-se o jornal só porque em scena
mostrára certa artista
uma das pernas gordas, e essa—obscena,O Palha redarguiu: que era uma pena
e, mais, uma injustiça
tratar como se fôra de corista
a perna d'uma actriz—das de mão cheia;
—que a perna era a cubiça
do velho jornalista;
—que o ferro d'elle, o ferro... era que a meia
cobrisse aquella gambia tão roliça;
por fim—que era um sacrista...
insulto enorme a quem ajuda á missa!
Ás partes deu-se vista
da perna questionada. Era postiça.
Recalcitra a Nação, accesa em febre:
—que fôra burla torpe, e facto novo
em terra portugueza, dar-se ao povo
um gato em vez de lebre.
—Que falsa ou verdadeira a perna fosse,
de rama d'algodão, ou simples cana,
sempre era perna, e gratis dava um dôce
a quem de lhe morder não désse a gana.
D'ahi a grave offensa
á pureza moral da raça humana;
a indignação immensa
d'uma sã consciencia ultramontana!—Que o Palha tambem fôra antigamente
irmão na sacristia
levantando a ração, conforme a havia,
e sempre com bom dente.
—Que lá n'um bello dia
fugira como um burro cacilheiro
sem lhe gritarem: Chó!... Que santa gente!
Que o réles emprezario, tendo o fito
nas cruzes do dinheiro,
trazia todo inteiro,
aos pinchos, dentro em si, um vil cabrito:
a fórma d'animal mais predilecta
do Belzebuth maldito
quando a noss'alma empanzinar projecta.
—Que os paes, avós, emfim toda a Palhada
que jaz na cova, qual vivera, honrada,
por causa da tal perna
ficára condemnada
d'uma eterna vergonha á dôr eterna.
O réo contesta, e diz:
—Que era verdade
haver por lá andado;
mas n'uma tal edade
que não chegára nunca a ser ferrado.
—Que o tinham n'um cerradoonde brotava apenas a Saudade;
constante era a estiagem;
o ceu caliginoso;
de lagrimas sómente a beberagem;
por festa o cardo; espinhos só por goso.
—Que tiritando ali, aguado o pêllo,
extincto o movimento,
transportado se vira n'um momento
ás pávidas mansões do eterno gêlo.
—Que, lá muito de longe, a Liberdade
lhe fez então negaças.
«Tens frio?... Vem. Aqueço. A escuridade
é de razão deixal-a á sepultura,
veu das caveiras, manto das carcassas!
Chama-te a luz! a luz que vem da altura
dos iriados ceus!... Surge!... Caminha!...
Quanto mais caminhar a humanidade
do espirito de Deus mais se avisinha.»
Apoz da seducçáo d'aquelle canto,
ouvindo aquelles hymnos,
homem por elles feito, erguida a fronte,
partira ancioso em busca do horisonteonde, envolvida em nimbos purpurinos,
c'roada d'amaranto,
a deusa refulgia.
Partira. Fôra. E não se arrependia.
Conspurcal-a pretendem? Na passagem
cospem-lhe insultos? Baixam-lhe a pagode
o templo augusto? Arrastam-na á voragem?
Ella é pura sempre; é sempre forte!
Póde velar seu rosto; só não póde,
sem que renasça, captival-a a morte!
E disse mais. E disse d'esta sorte:
—Que mesmo ao Santo Padre, e mais é santo,
não faz o dinheirinho um mau cabello...
nem, em nome de Pedro, recebêl-o.
Para engeital-o, em menospreço tel-o,
nas mãos como José largar-lhe o manto,
um pobre peccador e Belisario,
seria necessario
que fosse um dromedario;
que fosse um gran camêlo!
—Que exhibir uma perna no theatro
não era nada comparado ás quatrosobre as quaes a Nação a qualquer hora
vae, cabisbaixa, manquejando legoas
por esse paiz fóra.
—Que em seu rancor profundo,
sendo christã, não dera ao menos tregoas
áquelles que dormiam descançados
nas sombras do outro mundo!...
Coitados!...
Sim; coitados!
Empenharam-se juntos na batalha
em pró do mesmo rei. Nos mesmos fossos
o mesmo pó morderam. Na mortalha
nem isso lhes valeu!
Ai! pobres ossos!
Ouvidos por tal fórma ambos os lados;
e
—Sendo mais que certo
que a folha authora, os olhos pondo em Christo,
por um cantinho d'elles já tem visto
pernas no palco, e pernas mais ao perto,
sem que torça o nariz ou mostre nojo;—Não podendo a Moral chegar tão longe
que exija a cada canto um Varatojo,
nem de cada mortal engendre um monge
dormindo sobre o tojo;
e
Visto que a Nação no seu ataque
foi rude, e foi cruel, e deu motivo
do Palha ao fogo vivo
que a poz, no ardor do saque,
pouco mais, pouco menos, como um crivo;
—Sendo que o Palha, embora na defeza,
faltou ás leis da guerra
contundindo a Nação prostrada em terra;
inutil, bestial, impia fereza,
inda em cima aggravada na certeza
de estar sovando um martyr;
Attendendo
a ter o mesmo reu a consciencia
do mal que procedia
quando, esquecendo a antiga convivencia
por futil ninharia,
em vez de lhe deitar logo um remendo
se poz a esg'ravatar na porcaria;
Manda a Justiça, a cega, a que é machucha,
a pomba immaculada,
a fossil que nem chuchanem consente sequer em ser chuchada;
ordena a incorruptivel,—Deus lhes valha!...
que vejam bruxa os dois! Veja uma bruxa
a bruxa da Nação! Veja outra o Palha.
Assim, condemno os dois da vida airada.
Em castigo ao jornal seja o Libello,
n'um livro, publicado. E que o releia,
(pequena penitencia ao grande excesso!)
quem á bilis soez abriu a veia.
Saibam-lhe a fel, e trinque-os sempre á ceia,
os fructos do seu odio!
Dal-o ao prelo,
dar-se a si mesmo em elzevir impresso,
jungidos ambos, presos n'um só elo,
do Palha a pena seja, e o seu flagello!
Na mesma falta incursos,
e n'outra falta ainda, a de recursos,
paguem os dois as custas do processo.

INDICE

Pag.
Dona Morte[7]
Por fim[17]
Carta ao Conde d'Almedina, Inspector da Academia Real de Bellas-Artes, que no estrangeiro sollicitou uma commenda para o author[23]
Requerimento[27]
Prefacio d'um livro inedito[33]
Mal por mal[35]
A uma creatura[39]
Além da campa[45]
A Julio Cesar Machado, que em folhetim do Diario de Noticias dirigira ao author phrases benevolas[47]
Dies iræ[53]
O meu tinteiro[57]
A Venus nova[63]
O lobo e o cão[67]
Deus e o Amor[71]
Enteada[87]
N'um album[89]
Raphaela[91]
As minhas memorias[119]
Estrella cadente[121]
Ao actor João Anastacio Rosa que, na sua officina de sapateiro, mandára fazer para uso do author umas botas impermeaveis[129]
As rãs pedindo rei[133]
Onze de Novembro[139]
Assim é que eu gosto d'ella![143]
Em Cintra[153]
Pedindo o indulto d'um alumno militar que em 1872 foi expulso do Lyceu de Lisboa por não haver restituido a outro alumno um livro que lhe pedira emprestado[163]
Processo (1875):
Libello[167]
Contrariedade[173]
Sentença[181]