Mamãsinha impertinente,
não te ponhas com tolices.
Faze como se não visses
se vires a filha innocente
lendo as minhas criancices.
Deixa vãs prohibições
se este meu livro não queres
escondido entre colchões,
que é onde escondem mulheres
livros, cartas, e... orações.
Depois, o livro que ensina?
Muita coisa boa e má
que ha de fazer a menina
porque tu, que és menos fina,
as fizeste ao seu papá.
E sendo condão fatal
que a filhinha, que tu crias
com pretensões a Vestal,
siga o exemplo das tias
pela influencia carnal;
Ao vêr servir de palito
n'este meu livro erudito
tanta gente, ha de hesitar;
e á cova irá de palmito...
se a morte cêdo a levar.
Deixa-te pois de tolices,
mamãsinha impertinente.
Faze como se não visses
se vires a filha innocente
lendo as minhas criancices.
MAL POR MAL...
Eu trago em minh'alma afflicta
revolto mar de agonias.
Tedio da vida os meus dias,
as minhas noites, agita.
Ó minhas crenças d'outr'ora,
dôces amigas da infancia,
a que longinqua distancia
do meu peito andaes agora!
N'esta cerração escura
assim me deixaes sósinho!
e sem que volteis ao ninho
baixarei á sepultura!
De mim te acerca bem perto,
ó morte! No estreito abraço
vôa commigo no espaço,
leva-me d'este deserto!
Mas se na mansão infinda,
onde librar-me tencionas,
nos dão as mesmas taponas
com que a sorte aqui nos brinda;
Se esguio velhote avaro
n'essas alturas se encontra,
com seu barrete de lontra,
olhar e sorriso ignaro;
De fallas mansas, beato
para vêr se os santos pobres,
saudosos dos magros cobres,
lhe vão empenhar o fato;
Se o operario, se o povo
crê tambem que o mundo em ruina
ha de saír da officina
corrigido e mundo novo.
E em lutas, que são eternas
por lhe ser eterna a peia,
quebrar pretende a cadeia
e quebra a si proprio as pernas;
Se n'esse logar bemdito
pisamos a mesma lama
que sobre a terra se chama
—O Asmodeu,—O Mosquito—;
Se é Mercurio almiscarado
o filho de Compostella;
se por ventura um Alviella
tem lá de ser encanado;
Se o Milhão é quem impera;
se se fez Deus o egoismo;
se ha dôres de rheumatismo,
e nas vinhas phylloxera:
Fecha, ó anjo, as negras azas!
que em tal apuro, olha o rente!
tanto faz morrer a gente
como mudar-se de casas!
A UMA CREATURA
Que tens tu a dizer do teu destino?
Que mal... que mal te fez, ingrata, a sorte?
Desunhas-te a comer queijo londrino;
na polka és a mais forte;
essa fulva cabeça de leôa
não passa d'avellã; por isso és goso
do bravo rapazio de Lisboa.
Preludias na banza um rigorosoque os mortos ergue, as campas despovôa.
Desmamadinho já, em salto airoso,
balando, os longos ecos atordôa
o teu futuro esposo.Calçando o largo pé na estreita bota
encaixaste o Rocio na Bitesga.
Capaz és tu de entrar, sendo janota,
no ceu... por uma nesga.
Trazes um dogue ao collo... Tens na tia
chaperon e banqueiro. Anda estafada
a velha e mais a burra. A orthographia
comtigo, ao vêr as duas, não quer nada.
Quem de môlho as barbas não poria
vendo a barba visinha incendiada?!
Dás á lingua durante o santo dia,
e bates na criada!
A coisa mais feliz de quanto existe
és tu portanto. E dás então cavaco,
maldizes, blasphemando, o mundo triste!
e chamas-lhe velhaco!
O mundo?! O mundo o que é? Por mim supponho
ser apenas ironica pilheria
que Jehovah soltou quando, risonho,
pretendeu descansar de empreza séria.
Ha n'elle o encanto espiritual do sonho.
Ha n'elle o encanto vil da vil materia.Faz rir e faz chorar, o Triboulet medonho!
a divinal miseria!
A graça toda está n'estas nuances;
nas sombras e na luz com que prepara
da dôr e do prazer os varios lances
o velho Dulcamára;
Nunca viste Neptuno carrancudo
pendurar-se nas azas da procella,
roçar as cãs no ceu e em silvo agudo
dar por mortalha ao barco a solta vela?
Agora não o vês sereno e mudo
como a brincar na praia se ennovella?
Pois similhante ao mar no mundo é tudo.
Resigna-te, donzella.
E tudo ha de acabar, o mar e o mundo.
Até do meu amor a intensidade
sumir-se irá no pelago profundo
da fria eternidade!
Eu escrevi—amor?! Fiz mal. É grego;
é grego para ti: peior,—sãoskrito;e tu nas linguas mortas não dás rego.
Se um dia, por acaso, o pequenito
traquinas e cruel, alado e cego,
tentasse dar-te um golpe... era bonito!
Fugiria a gritar: Armas que emprego
não entram no granito!
Tu partilha não tens na dôce herança
dos anjos que voaram! Antro escuro
a tua alma será! Nenhuma esp'rança!—
nenhum extasis puro!
Como quando ao romper da rôxa aurora
deslisando na valsa doidejante
soltas da trança a rosa que descora,
de si te apartará n'um só instante
o louco turbilhão que te enamora.
Pallido o rosto, o seio palpitante,
ao ceu perguntarás na dôr d'ess'hora
se a morte vem distante!
O vácuo! a saciedade! o horror das trevas!
Ninguem ao pé da cruz no teu calvario!
Por só cortejo ao cemiterio levas
um padre mercenario!
Nem esse volta lá. Rezou, e a prece,
em mau latim, por bons tostões foi paga.
O fardo que largou mais não merece.
Recebe por adeus grosseira praga
d'um coveiro que o some, e breve esquece.
Grão d'areia que foste ao mar co'a vaga,
quem te busca depois? Quem te conhece?
Teu fim quem é que indaga?
Se é tempo, ó transviada, atraz teus passos!
Abre o teu coração. A fé te anime.
Não ha na vida mais estreitos laços.
Amor tudo redime.
Vêl-o-has dissipar a nevoa densa
que o teu dia transforma em noite escura.
Respeitada serás. Trarás, suspensa
de teus vermelhos labios, a ventura;
que eu não sei de ninguem a quem não vença
puro amor abraçado á formosura.
Serás mulher,—é essa a recompensa,
em vez de creatura.
Se mover-te consegue esta palestra
manda morrer o cão no Instituto;compra cartilha e pedra, e prova á mestra
que vales mais que o bruto.
Depois reforma a tia. Irá na Graça
accender ao Senhor trezentos lumes
por tirar-lhe do lombo essa carraça.
Vê-se livre da espada de dois gumes
que a burra lhe sangrava, e na carcassa
vasto caminho abria a vãos queixumes.
Menina, já que estás co'a mão na massa,
reforma os teus costumes.
E como incerto é sempre o bem futuro
e póde arrepender-se o arrependido,
vae lá pondo, á cautela, no seguro
o nome do marido.
ALÉM DA CAMPA
(Imitação do hespanhol)
N'um povo, perto de Cintra,
foi o rev'rendo prior
em fria cova depor
o cadaver d'um pelintra
mesmo ao pé d'um seu crédor.
Apenas se viram juntos
por toda a vida sem fim
romperam n'um tal chinfrim
que, dizem velhos defuntos,
ser virgem um caso assim.
«Vossê pague! ai que vae torta!»
gritava o crédor.—Com quê?—
gemia o outro.—Não vê
que entrei nú aquella porta
porque nú me poz vossê?!—
E n'este rosnar eterno,
n'este diz tu direi eu,
o crédor, que era judeu,
enreda o outro n'um inferno
como o inferno em que viveu.
Se em meu derradeiro instante
eu tiver crédor voraz,
permitte, ó Deus, se te apraz,
que por cá fique o tratante
p'ra que eu, morto, viva em paz.
A JULIO CESAR MACHADO
que em folhetim do Diario de Noticias dirigira ao author phrases benevolas