Ó Julio, ó meu amigo, o que disseste?
Fallar em nós?! Fallar em mim?! Na peste
d'esse Parnaso ignobil de ha trinta annos?
Fui um asno sem tom, nem som, nem furo;
uma coisa p'r'ahi entre os humanos
como entre o trigo o joio; um insensato
cuidando toda a vida que o futuro
se faz sómente como o faz o gato
por noites janeirinhas, e o meninod'onde ha de vir ridente, e róseo, e puro,
é da raiz... do verso alexandrino!
Tu verás, se viveres. O destino
se condôa de ti a tempo e a horas,
que eu já não temo nada. N'esta idade
quanto mais o doutor me põe escoras
mais depressa galopo á Eternidade.
No dia em que florir a ideia nova
nem restos ha de mim na escura cova.
Depois...
Pensando bem, ás vezes julgo
que não deve ser mau vêr estes numes
na faina redemptora! E, mais, o vulgo
já não crê n'outro Deus! Os bons costumes
vão apanhar por fim um São Martinho
qual nunca lhes foi dado... excepto em vinho
que embrutece a razão! Pois com certeza
leva uma razzia o Torres e o Cartaxo!
Ou bem que a gente é gente ou que é um cacho!
D'amor, que é velho, temos conversado!
Rua com elle! Amor é uma fraqueza.
É velho e cego, e não espera luas,
e quando lhe appetece faz das suas,
e são as suas d'elle o vil peccado!
Basta cortar-lhe bem a ponta da aza
e triumpha a moral. Rapaziada,
nunca mais andarás no mundo em braza
atraz da tua amada!
Mudei de metro como d'alimaria
muda Tinoco, o bravo, na tourada,
pois quanto em verso a fórma fôr mais vária
menor é a massada.
Calcule-se o porvir pelo presente.
Nós somos democratas;
e fique o ponto assente.
Noventa e tres é tudo quanto, em datas,
a Historia nos tem dado
mais nobre, e santo, e digno de imitado.
Amor... e guilhotina!
Luz d'uma aurora, d'um incendio chamma!
Mayonnaise de sangue e de doutrina!
Quanto o homem sublima e quanto o infama!
Noventa e tres e a França!
Eis o lemma, eis o exemplo, a viva esp'rança.
Anda tu cá, ó lemma, que te quero!
Dom Bertholdinho a dar-se um ar de Nero!Somos, sim, democratas... á capucha;
Marats de sêda frouxa; uma chalaça
com Marselheza indigena,—a Cachucha.
Palavra! que tem graça!
Que o bom senso, tão raro! nos acuda;
nos tome um dia a sério!
Não ha Sebastião nenhum da Arruda,
suando phalansterio,
que não mande estampar nos seus bilhetes
armas ducaes, brazões de pataratas!
Morremos por trincar a monarchia;
mas trincamos-lhe a ceia e os sorvetes
emquanto lá do ceu Deus não envia
novo maná... de instituições baratas!...
Uns typos! Bons, pacatos, sem ter odios
nem bombas... a não ser de Santo Antonio,
bombas de luxo, bombas só de estrondo;
indo buscar pretextos para brodios
a casa do demonio,
e quando os não achamos
nem dentro em nossa casa nem na estranha,
calçado a polimento o pé redondo,
vazio o coração, repleta a entranha,
vêr desfilar a procissão de Ramos.E n'este ambiente, em pleno Rilhafolles,
no ardor da Saturnal, sonhaste, ó Julio,
que um velho gordo, com as carnes molles,
sem ter outro peculio
além do rheumatismo, sertanejo,
viria em petit-maitre dar aos folles
do outr'ora enamorado realejo?
Desde que o maganão do deus Cupido
não tem na aljava setta que me fira,
passou-me do sentido
tudo quanto em rapaz tanto sentira.
Rabisaltona musa é hoje em dia
quem me ampara e conforta, e quem me inspira.
Quando fugir, morri. Outra alegria
qual te foi dada a ti, sol na velhice,
conceder-m'o não quiz quem bem podia.
E fez uma tolice.
Eu sei se a fez, ou não; modestia á parte.
E só para dizer-te uma palavra
d'affecto e gratidão moí d'est'arte
a tua paciencia! Antes do Lavra subisses a calçada,
ou lesses uma peça premiada.
Era muito, bem sei; mas era menos.
Obrigado, meu Julio. Isto, em resumo,
devera ter escripto. O mais é fumo.
Deixa-o seguir no espaço o ignoto rumo,
e dá saudades minhas aos pequenos.

DIES IRAE

É novembro, e faz um frio!
Eu então é que ando em braza!
Pudera! se o senhorio
me pede a renda da casa!
Réles cobre em vão recruto
no lidar da vida insano.
Desertam n'um só minuto
as vis poupanças d'um anno.
Embora á carne dê tratos,
á velha carne exigente,
deixando passar os pratos
sem pôr nos piteus o dente;
Embora esguia quinzena
traga já no extremo fio,
e córte a rara melena
só pelas calmas, no estio:
Não coalha esta formiga
nem grão, nem sequer paveia!
Sempre na mesma fadiga,
enche... vasa... o pé da meia!
Sob o teimoso aguaceiro
de tanta renda de casas,
depennado, em meu poleiro,
metto a cabeça nas azas.
Cança o sorrir da ventura;
o rigor da sorte cança;
só por entre o que não dura
vae sempre durando a esp'rança.
Eu espero a moradia,
onde de graça me acoite,
no seio da terra fria;
nas sombras da infinda noite!
Ao menos no eterno gelo,
nos fundos antros escuros,
não terei por pesadêlo
meus senhorios futuros!
Um é Deus: a esse um amigo
satisfaça em padre-nossos.
Outro é o verme: eu cá o espigo
dando-lhe em paga os meus ossos.

O MEU TINTEIRO

Era em agosto. O norte, desabrido,
mugindo como um toiro, sacudia
os troncos do arvoredo. Ia-se o dia:
um dia d'amarguras tão comprido
que eu cheguei a pensar que a Eternidade
nas chammas infernaes já me envolvia!
Por meu mal terminou! que um outro veio
depois d'aquelle, e foi peior mil vezes!A minha irmã, á dôce companheira
da longinqua, saudosa mocidade,
coubera, nova ainda, a feliz sorte
de ter, após tres longos, tristes mezes
d'um filho haver perdido, achado a morte.
Antes d'ella expirar, á cabeceira,
em torno do seu leito, se agrupára
tudo quanto durante a vida inteira
fôra por ella amado, e tanto a amára.
Eu, fingindo sorrir, assim dizia:
«Agora estás melhor. No rosto as rosas
da antiga primavera! Olhos em fogo!
Uns olhos como d'antes! Vês, Maria,
que estás melhor agora?! Em desafogo
respira o peito já! Estas nervosas
dão vontade de rir! Que espalhafato!
Um cortejo de coisas! Raça estranha!
Por isso o outro fez com que a montanha
désse, aturdindo a terra, á luz um rato!
Vae a galope a enferma que melhora.
Ámanhã, ou depois, saltarás fórad'essa importuna cama. O que te cança
é ter o corpo ahi. Vamos a Piza
passar o inverno todo. Alli serenos
são sempre os ceus. Alli tepida a briza
dá vida a um velho! Então a uma criança!
«Tontinha é o que tu és! que estás chorando!
sem que saibas porquê, aposto, ao menos!
Iremos todos, grandes e pequenos!
Quasi uma romaria, um cirio, um bando
d'alegres passarinhos chilreando
por essa Europa além! Tu, pregoando:
Quem quer saude? Quem? Vende-se e dá-se!irás distribuindo, co'a mão cheia
d'essas papoilas, um bouquet vermelho
que pouco e pouco a desbotada face
ha de tingir-te e... até fazer-te feia!»
—Iremos todos, sim!—fraca, tossindo,
a pobre interrompeu:—Sim!... Vamos indo.
É então ámanhã que eu d'aqui saio?
Depressa ámanhã vem! Dá-me esse espelho.
Se tu não mentes devo estar um Maio!—Mirando-se, volveu:—A minha pena
é que... ellas... me não vejam n'este instante
em que finda a comedia e deixo a scena!
Se eu não soubesse que este mundo é um sonho;
se trouxesse o meu Deus de mim distante;
como este despertar fôra medonho!—
Depois foi repartindo as suas prendas
por quantos eram lá.
—A ti... primeiro.
Lego-te... dou-te... aquelle meu tinteiro.
Tu fazes versos. Sei que não te emendas;
sempre te serve aquillo!—
Desde ess'hora,
e já lá vão cumpridos bons trinta annos,
quando me engano a mim n'esses enganos
da musa brincalhona, raro mólho
a penna folgazã que me não traga
nos bicos uma lagrima.
Ai!... Eu ólho...
aos abysmos do mar pergunto: «A vaga,
que eu vi sumir-se, onde é?»
E o mar afaga
a praia em que a deixei, e vae-se embora,
e volta, e vae! mas não responde; chora.

A VENUS NOVA

Não, Rachel, não desvario.
Venus, o estylo é antigo,
os seus dotes repartio
bem largamente comtigo.
Deu-te esse corpo divino!
esses seios palpitantes!
Fosse eu inda pequenino
e tu minh'ama! Que instantes!
Por ser branca e por ser loira
tem o loiro em menos preço;
por isso te deu da moira
o negro cabello espesso.
Chega aos olhos... De repente
vê que não tem na palheta
côr nenhuma refulgente
para imitar um planeta.
Corre logo á fonte limpa;
e procedeu com acerto
que em ocios não se repimpa
quem se encontra em duro aperto.
«Ó dôce noite», ella exclama.
«Tu tens estrellas a esmo.
Duas quero em rubra chamma,
quasi soes; dois soes. É o mesmo.»
A Noite, que é velha fina,
e foi sempre a Venus dada,
responde:—Minha menina,
só para a outra fornada.—
«Pois ao forno! e já! que eu pago!»
A Noite, ouvindo-a, lampeira.
A estrada de São Thiago
deitou logo na caldeira.
Fogo ao lado, e fogo ao centro!
Quando a fervura era viva
o sete-estrello p'ra dentro!
e folhas de sensitiva!
Ao cabo de poucas horas
em duas orbitas fundas
despejou duas auroras
com que est'alma em luz inundas.
Venus pulou de contente;
mas depois... (que são mulheres!)
disse á outra em tom plangente:
«Adeus!... O que tu quizeres!...
«Fizeste-a fresca! Eu reinava.
Era no Olympo a mais bella.
Passei de rainha a escrava.
A Venus agora... é ella!»