O LOBO E O CÃO
Traducção da fabula de Lafontaine—Le Loup et le Chien
Não tinha um lobo mais que a pelle e o osso.
Signal é que de orelha arrebitada
bem vigilante andava a canzoada.
Encontra o lobo um dógue forte, grosso,
nutrido, luzidio, uma belleza!
que distraído abandonára a estrada.
Sorri-lhe a nedia preza!
Saltar-lhe logo ali, fazêl-a em postas
o seu desejo fôra. Dura empreza!
A lucta era infallivel. Voltar costas
não usam perros quando são valentes,e, mais, os brutos! dão ás vezes cabo
do fero contendor! Diabo!... Diabo!
Então aquelle, com aquelles dentes!
*
Humilde o lobo, pois, encolhe a cauda;
chega-se ao cão; abaixa-lhe a cabeça;
puxa conversa; diz que folga em vêl-o,
que deixe que elle admire, que elle applauda
topal-o assim... e com tão bom cabello!...
e rijo! e gordo! Um frade! Uma abbadessa!
«Esplendido senhor»,—o cão responde;—
«de vós depende o ter igual gordura.
Fugí dos bosques, onde
por teima da desgraça
de fome e frio só achaes fartura,
vós, senhor lobo, e a vossa pifia raça.
Dias e dias sem comerem nada!
e lá por festas, raras, esquecidas,
um petisquinho conquistado á espada,
tragado ás escondidas!
Ahi é certa a morte! Furtae-vos a seus braços!
Seguí... seguí meus passos;
tereis outro destino e melhor sorte.»
—Mas como?—volve o lobo.
—Fazer então que devo?—
«Bagatella:
nem morte d'homem nem de egreja roubo;
simplesmente estas coisas: não dar tregoa
á santa gente rôta, mendicante,
bordão n'uma das mãos, n'outra a tigela,
que vem inda a distancia d'uma legoa
e já tresanda a essencia de tratante.
Lamber as mãos ao dono; ser submisso...
dar cóca, é o termo proprio, ao dono e a todo
quanto bicho careta houver em casa.
Salario apanhareis que vos apraza:
ossos das aves, rodas de chouriço,
restos vindos da mesa, e tudo a rôdo!
Até uns tagatés em cima d'isso!»
*
Tendo prestado ao cão attento ouvido
o lobo, coitadinho!
com perspectiva tal enternecido
não tugiu nem mugiu, mas fez beicinho.
*
Iam caminho já do povoado
quando o lobo notou que no pescoço
o cão era pellado.
—Que tens ahi?—pergunta em alvoroço.
«Nada, que eu saiba.»
—Nada?!—
«Frioleira.»
—Mas afinal o que é?—
«Ora!... A colleira
com que á noite me prendem junto á porta...»
—Prender-te?!—o lobo exclama.—Não saes fóra,
não corres livre pela terra inteira
quando te dá na gana, e a toda a hora?—
«Nem sempre. Isso que importa?!»
—Tanto importa que toda a trincadeira
com que me acenas, um thesouro embora,
por tal preço não quero.—
O lobo finda;
põe-se logo na perna, e corre ainda.
DEUS E O AMOR
(1870)
No ceu, cabisbaixo, o Amor
um d'estes dias entrava.
O pobresito levava
impressa no rosto a dôr
e as settas todas na aljava.
Ao vêl-o o Eterno exclama:
«Que vens tu fazer aqui?!»
—De Lysia, meu Deus, fugi
porque lá vivo da fama;
os meus freguezes perdi.
Busca a moça um noivo rico
sem lhe importar nada mais.
São fumo as paixões e os ais;
pintos, nina. Apanha o mico!—lhe bradam os proprios paes.
Por isso, feito o consorcio,
sae da egreja o par fiel,
e o noivo compra papel
para requ'rer o divorcio,
passada a lua de mel.
Torto já, e á vara larga,
o fino dandy seduz.
O mais que faz o lapuz
quando em finezas se alarga
é roncar: Que tal te eu puz!
Do patrio amor todo o fogo
traduz-se no venha a mim.
Quem faz d'um jornal pasquim,
sem trunfos entra no jogo
e sae-se trunfo por fim.
Bellini foi-se!... não presta.
Da harmonia a nata, a flôr,
veio encontrar successor
no Fado, que é o rei da festa,
o canto que faz furor!—
A virgem martyr Cecilia,
ao ouvir blasphemia tal,
ataca o si natural,
e, pedindo um chá de tilia,
cae em deliquio mortal.
Sem reparar no que passa
soluça o Amor e diz:
—Murcha pende a flôr de liz.
Jaz prostrada na desgraça
a patria de São Luiz!
O Krupp a morte semeia
de Sarbruck até Sedan,
e París, a cortezã,
nas garras da fome anceia!
Que serás, França, ámanhã?!
Pois n'estes dias sombrios
a velha Europa sagaz,
cuidando ter um antraz,
fez ataduras e fios
em vez de fazer a paz!
Lisboa, toda vergonhas,
e orgulhosa, e esmoler,
atraz ficar-lhe não quer
e desata a fazer monhas;
mas fios, nem um, sequer!
Acima da humanidade
ha n'esse bom Portugal
o novilho e o boi real.
A dôce fraternidade
anda nos paus do animal.
De meu seio a pura chamma
deixa, ó Deus, arder aqui.
De Lysia a correr fugi
porque lá já ninguem ama
nem mesmo, Senhor, a ti!
Nem mesmo! que sem respeito
tonsurado berrador
troveja em voz de Stentor,
batendo murros no peito,
que o teu braço é vingador;
Que ao reino teu infinito,
á mansão da eterna luz,
tua mão, Senhor, não conduz
quem fez o enorme delicto
de ignorar que houve Jesus;
Que tu, meu Deus, que és o forte
que destruiu Jericó,
que és a Justiça... tu só,
habitas n'aquella córte;
encarnas no immundo pó!
E para acabar o quadro,
para lhe dar mais unção,
afoga o impio sermão
junto á cruz que está no adro
em ondas de carrascão!
No templo teu, Pae divino,
apparato theatral!
Em redoma de crystal
vestido Jesus Menino
de chéché do Carnaval;
E o alvo lirio, Maria,
a pura depois de mãe,
caracoes e rolos tem
como usava a minha tia
quando ia ao Paço em Belem!
No altar-mór o scenario
que effeito fazendo está!
Pallida a lua... acolá!...
Além a cruz... o Calvario...
Fóra, author! Bravo, Rambois![1]
Na nave central—cavaco;
e no côro, ai! pobre fé!
latagões côr de café
uivando dentro d'um sacco:
—Sou o Barba-Azul! Olé!—
A catholica Judêa,
o christianismo pagão,
ousa mais! Põe em acção
do Homem-Deus a epopêa
na sensual procissão!
Ás enfeitadas janellas
corre a curiosa avidez.
Fazem cauda. Esperam vez
como se elles e ellas
fossem vêr um entremez!
Depois começa o serviço.
Olho aqui... e olho lá...
no seu tudo, e no papá
que embirra co'o tal derriço
por andar no b-a-ba.
Namorando as carnes núas
do que vae no floreo andor,
outras dizem:—«Salvador,
se todas são como as tuas
quem não será peccador?!»
Emquanto se eleva o incenso
na caprichosa espiral,
o garoto, essa vestal
dos vates de hoje, no lenço
faz mão baixa e no metal.
E, manso, por entre o grupo
da ondulante multidão,
serpenteia a procissão.
Rumoreja em torno o apupo.
Consternam-se alma e razão.
Que brutos cêpos são esses?
Vae Deus ali? Christo nú
posto a par do manitú,
homens dos torpes int'resses,
filhos glotões de Esaú?!...
Tartufo os impetos doma.
Vive agachado o chacal
a espreitar se o olhar fatal
de Filippe á voz de Roma
lampeja no Escurial!
Fiar n'elle!... O incendio lavra
occulto. Na escuridão
forja de novo o grilhão
á consciencia, á palavra,
a satanica legião.
Em teu nome o lar deserto!...
O pranto manando a flux!...
Morta a esp'rança! Extincta a luz!
e da cruz contra o liberto
mudada em punhal a cruz!—
Largamente aqui respira
sêcca a lingua e falto de ar,
que o terno Amor, a fallar,
não é como os de Tavira:
—dá-lhe... dá-lhe até 'stoirar!—
Mas, depois, como o Vesuvio
irrompe. Ao rosto gentil
assoma a raiva, e febril
bate o pé; grita;—um diluvio
manda ao infame covil!
Outro diluvio! incessante
a subir... subir... até
que não fique nada em pé!
nem possa nenhum farçante
fazer arca e ser Noé!—
Deus, que os seus ouvidos presta
ás queixas que Amor lhe faz,
sorri e diz: «Ó rapaz,
um T escripto na testa
porventura me verás?
Eu dei-lhes a lei sublime
nas alturas do Sinai.
Se contra a lei, contra o pae,
conspira Lysia—no crime
do crime o castigo vae.
Triumpha o Milhão, e Hero
não houve mais que uma só?
O Creso do oiro em pó
a flauta fará de Nero,
e da flauta um bom cipó.
E se os maridos, tontinho,
fugindo ás esposas vão,
deixa-os lá. Por fim terão,
em vez do calor do ninho,
os gêlos da solidão.
A vida passa ligeira;
e, quando a morte vier,
qual d'elles é que não quer
dôce oração derradeira
entre beijos de mulher?!
Ai!... Acabar longe d'isto!...
sem perdão!... sem paz!... e meu
sem ser nenhum!... Galileu,
tu que fizeste?... Ó Christo,
teu sangue que fructos deu?!...
Fiz de ti a rósea aurora
da universal redempção;
inda após o teu clarão
o Deus cêpo é o Deus que adora
a proterva multidão!
Pois para amar-me é preciso
mais que os olhos alongar
pelos ceus, por terra, e mar?
mais que o pallôr indeciso
d'uma noite de luar?!
Pois n'esses milhões de mundos,
que girar no espaço fiz,
não falla tudo? não diz
em seus canticos jucundos:
—Senhor! Senhor, existis?!—
Erriça o leão a coma?
Nas sombras do Escurial
ergue a pedra sepulchral
de Filippe a astuta Roma?...
Erga!... e surja o rei fatal!...
Antro, e fera, e vil Tiberio,
tudo no pó sumirei!...
que dos reis eu sou o rei,
e as chaves do meu imperio
a mão nenhuma entreguei!
Perdes o tempo, creança!
Se o perdes, meu doido Amor!
Sei quanto és enganador!
quanto és feroz na vingança
e folgas da alheia dôr!
És vendado, és cego, e ousas
como se visses fallar?!
Pois has de á terra voltar.»—
E o pae de todas as cousas
foi-lhe os olhos desvendar.
Então o dôce fedelho,
tão dôce como cajú,
repara em si... vê-se nú...
faz-se azul... faz-se vermelho
como um monco de perú.
Depois a fugir desata
pelas ethereas regiões.
Atraz d'elle as maldições
de quanta velha beata
foi ao ceu... por alçapões.
Que o ceu que estamos mirando
occultas entradas tem,
e sem fiscal! Inda bem.
A não ser por contrabando
já lá não entra ninguem.
Vôa... vôa... É mesmo um raio
rapido o espaço a rasgar.
Vôa... Á força de voar
perde o alento, e n'um desmaio
vem no chão co'as azas dar!
N'essa noite a authoridade
metteu, zelosa qual é,
o menino em São José;
mas ninguem crê na cidade
que a sciencia o ponha em pé.
Quem tem os dias contados
mais viver não póde, não.
É do amor finda a missão
dês que os fundos, bem cotados,
valem mais que o coração.
[1] Pronuncie Ramboá.
ENTEADA
Casou segunda vez certo sujeito
que sempre á viuvez torceu a cara.
Deixára-lhe uma filha o velho leito,
e mimo egual o novo lhe offertára.
Quando eu as conheci, uma era forte,
córada, alegre, brincalhona, viva;
pallida a outra, triste, pensativa,
como quem traz em si a dôr e a morte.
Das duas a mais nova, a que é sadía,
a lapis, n'um papel, graciosos traços
d'um corpo de mulher hontem fazia.
No fim as palmas bate, e, erguendo os braços,
«Olha a mamã!» gritou, «De longe basta...
basta vêl-a d'ahi!... Não será ella?»—
Volve-lhe a outra em voz que o sangue gela:
—Agora pinta lá uma madrasta!—
Miserrimos poetas que nós somos!
Por mais inspiração que nos abraze,
por mais phantasiar tomos e tomos
não valem juntos, não, aquella phrase.