IV

Quem me descobre a razão
d'esta infame grosseria?...
Consultando minha tia,
disse-me ella:—És um ratão!
Coisas tuas!...—
«Coisas minhas?!
Ora essa!»
—De quem são?
Se teu pae sem ter gallinhas
te deu boa creação?!—Mais ainda me condemna
ser a mulher que offendi
segunda Venus de Milo!
Que remorso o que eu senti,
e que nó no gorgomilo,
quando, absorto, o que era vi!...
Que ao fallar olhei... Por Christo!
juro que olhei sem ter visto.

V

Como usa a formosa filha
da formosa Andaluzia,
sob a elegante mantilha
pelos hombros lhe caía
de negro e farto cabello
a madeixa ondeada e crespa.Na cinturinha de vespa...
Alto lá! De vespa, não;
que é corriqueira a figura
e tola a comparação.—
A cintura... Se lhe chamo
só delgada—aqui d'el-rei!
porque é prosa. Ah! Já sei.
Delgadinha como um ramo
que sustém duas laranjas...
E da voz os sons tão finos
com que os hei de comparar?
Com voz d'anjos pequeninos,
travêssos, loiros, meninos
que andam no ceu a cantar,
aos quaes não tira o chapeu
este pobre filho d'Eva
emquanto Deus o não leva
a conhecel-os no ceu?!...
Impossivel!... Pois com quê?...
Deixe-se lá d'essas franjas,
ruim poeta! Você
não sabe que a natureza
faz coisas de tal bellezaque um homem, se logra vêl-as,
ha de pasmado ficar,
e pasmar... pasmar... pasmar;
mas não tentar descrevêl-as?!

VI

Qual a timida gazella
que no prado anda brincando
estremece e foge quando
sente rumor perto d'ella,assim Dona Raphaela...
Podia chamar-lhe Jónia,
Mathilde, Elisa ou Antonia.
Era o mesmo. Á mulher bella
todo o nome fica bem.
Toma-lhe a graça, a frescura:
participa da candura
de su'alma... se é que a tem.
Que a minha airosa andaluza
como a gazella fugio,
se o não disse a casta musa
que me inspira, o leitor pio
(não ha calemburgo aqui)
certo de si para si
a crêl-o não se recusa;
mas o que o leitor ignora
é que eu proprio, eu que ind'agora
lhe dissera: Vae-te embora,
ao vêl-a fugir fiquei
triste, só, desamparado
como o valido d'um rei
quando cae em desagrado!...
Ai! se o pensamento é vário
mais varía o coração.
Coração—Contradicção—
affirma-me o diccionario
que dois synonymos são.

VII

Amar depois que trinta annos
nos pesam sobre o cachaço;
quando os frios desenganos
guias são do incerto passo
que nos vae levando á campa;
quando a edade a correr vem
e nas faces nos estampa
oitenta rugas, ou cem!
amar sem crenças; amar
sem possuir attractivos;
é padecer, é penar
dôres do inferno entre os vivos.
Sabia-o; mas se fadado
fôra eu já para essa dôr!
e diz Garrett, o doutor
em taes materias versado,
que ninguem foge ao seu fado!
Funesto foi sempre o meu!
Est'alma, que Deus me deu,
em quantos affectos nutre
que devorou Prometheu!.

VIII

Da rósea estancia em que mora
com seu limpido clarão,
sorrindo, ao ceu vinha a aurora
soltar do prégo as azelhas
d'onde pende a escuridão
sobre chaminés e telhas.
A festival harmonia
pouco e pouco esmorecêra;
e co'a luz do novo dia
d'outra oschestra a afinação
mais altos cantos rompêra,
pois que entre os rocios do orvalho
levantára escopro, e malho,
um hymno de gratidão
ao Deus, author do trabalho.
Este aranzel, espremido
n'uma phrase clara e chã,
quer dizer:—era manhã,
e a solfa dos caldeireiros
matava o bicho do ouvido
na rua Augusta aos parceiros.