IX

Cheguei a casa. Quem ama
tambem dorme o seu bocado;
nem ha nada como a cama
para amor ser bem tratado.
Vêde as ratices do mundo!
Sentados no mesmo throno
amor, que é vida;—e o somno,
que da morte é irmão segundo!...
Em tão doloroso trance
é praxe no bom romance
surgir a pallida insomnia
beliscando a cachimonia
do que ás paixões não se poupa;
mas eu, que sigo outra lei,
fui-me enroscando na roupa,
e dormi. Fiz mais: sonhei.
Sonhei, sim. O que é sonhar?
É fugir do captiveiro
d'esta bola sublunar.
A noss'alma, que gemia
entre os ferros, encontrar
a paz, o amor, a alegria,
vivo, real, verdadeiro,
o mundo da phantasia.
É n'um divinal momento
conquistar, possuir, haver
o que nunca o pensamento,
por mais audaz, ousou crêr
que um dia á mão nos viria.
Sonhar é vêr palpitante
a toda a luz da existencia
o pae, os filhos, a amante
que a morte apartou de nós!
Ouvir-lhes a dôce voz...
interromper essa ausencia
eterna, a eterna saudade
que nos deixára o perdêl-os!
Sonhar é esta piedade
do ceu pelas nossas dôres;
esta mão cheia de flôres
que Deus esparge nos gelos!—
Tudo mais são pesadelos.
Pois eu sonhei, e não digo
o sonho que tive então.
Não por ser segredo, não,
que á terra desça commigo;
mas quem tem, como eu, vergonha,
mesmo ao leitor seu amigo
nem sempre diz o que sonha.

X

No outro dia ao almoço,
frugal almoço invejado
ao pobre e triste empregado
a quem aos mezes o Estado
permitte rilhar um osso,
muitas vezes esbrugado;no outro dia a Gertrudes,
velha magra, feia, teza,
inda cheia, á portugueza,
de calvas e de virtudes,
as quentes papas de milho
veio pôr-me sobre a meza.
A mim a quem nada escapa
logo ali me deu no gôto
O vêl-a andar n'um sarilho
a peneirar-se, e á socapa
sorrindo com ar garôto.
—Gertrudes, que historia é esta?—
E ella a rir.
—De que ri?!...—
A rir-se mais.
—Temos festa!
Vae grande baralha aqui
se me não diz, como quero,
porque essa bocca escancára,
e se desengonça, e rebola...Ella, atalhando:
«Salero!.
Soy, señorito, española!»
Figurem-se a minha cara!!
A visão, a Raphaela
com quem ha pouco sonhára.
o bello typo andaluz,
a flôr de um dia... era ella
saída das mãos do Cruz![2]

XI

A moral d'este meu conto
implica artigos de fé:
1.º
Quem vê masc'ra não vê rosto.
2.º
Belleza vista de dia
dê-se-lhe sempre o desconto
de trinta por cento em cré.
3.º
Depois do sol se haver posto
até a Virgem Maria
precisa ser vista ao pé.
4.º
Mesmo assim, inda que perto,
não se diga nunca ao certo
que se está longe da Sé.

[2] Guarda-roupa.

AS MINHAS MEMORIAS

Á Exc.ma Snr.ª D. A. F. Pinto