Nasci. Vivi. Foi meu cruel destino
ser inutil, vulgar, emquanto moço.
De dôr em dôr, cançado peregrino,
chego á triste velhice sem conforto.
Nunca pude saber o que era tino,
como a bolsa não soube o que é caroço.
Quando voltares hei de ser um morto.

ESTRELLA CADENTE

Ella não tinha ainda os seus vinte annos.
Eu já cincoenta, ou mais. Poucos enganos
podia haver na conta. Trouxe-a ao cóllo!
Não fôra um pólo em frente do outro pólo;
mas, inda assim, contando-se este caso,
dir-se-ia ao certo: Era uma vez o Occaso,
e era uma vez a Aurora... Não sei como
n'um bello dia, por ser vedado o pomo,
por ser appetitoso, finalmente
não sei porquê!... por eu ser um demente...
por ser ella o retrato da que é morta...
fosse lá porque fosse!—Isso o que importa
n'um bello dia—amei-a!... Uma doença
que a gente apanha quando menos pensa.
*
Sorriam de piedade os meus amigos
todos á uma, e os novos e os antigos.
Nas salas bichanava-se em cochichos:
«Ora, o ginja! aparando inda os esguichos
com que o bisnaga amor! Atraz da pomba,
o perfido lacrau!»
Deitavam tromba
os outros pretendentes. Um barulho
por nada. Então porquê?! Por um arrulho?...
Um simples suspirar?... Pois que mau era
brotar-me em pleno inverno a primavera?...Durava pouco?... Tanto quanto dura
em toda a terra tudo o que é ventura.
Engeita-se por isso?...
A minha idade?!
Fui de Mathusalem socio e confrade.
Adão dizia ao vêr-me: Olá, compadre!Contemporaneo eu sou do eterno Padre.
Não ha mais nada acima. Querem isto?...
O Padre, o velho, foi mais tarde o Christo.
Ondas d'amor jorrou d'aquelle peito.
Remiu. Salvou. Pôz termo ao longo pleito
entre as trevas e a luz, e, porque vinha
em nome só do amor, annos que tinha
ninguem lh'o perguntou.
Sinceramente:
ha rugas dentro d'alma?!...
*
Impenitente
morrera n'esta fé; sobre o Evangelho
jurára que mais ama o que é mais velho;se o ponto da questão, o delicado,
outro não fôra; um velho ser amado!
Aqui é que me dóe!
É necessario
primeiro formular um questionario.
Menos se quer á flôr, menos se trata,
por ser de argilla o vaso e não de prata?
Aqui... além... embora onde estiveres...
não és, ó flôr, a mesma?... e das mulheres,
—não digo já de todas; mas d'algumas—
igualmente o boudoir tu não perfumas?...
Não busca asylo a crença, a christandade
não presta o culto seu á Divindade
no templo secular, de negro aspecto,
humida arcada, abobadas por tecto,
como na alegre ermida redourada,
quente aos raios do sol, sempre inundada
de jubilos e festa?!... Amor travêsso,
só por vêr para dentro, vê do avêsso?
*
Não te illudas, ó louco! A Providencia
dependente do amor fez a existencia.Para estimulo a amor fez a belleza,
o viço, a força, quanto com certeza
tu já não tens. Por isso no concurso
aos vagos corações a pelle do urso,
a penna luzidia do bom pato,
dão por si preferencia ao candidato.
Esta a verdade crua. O sentimento
depois é que se faz. É-lhe fermento,
é mister que primeiro insuffle a arteria,
e n'ella o sangue injecte, a vil materia.
A bocca, um pé, a guia d'um bigode
mais que as almas em fogo sempre póde.
E tu não valsas!... tu não tens bocca
o argot da moda, a phrase insossa e ôca!
Por mais ciré, torcido, repintado,
que o teu bigode vá... bigodeado
és tu que ficas, velho! a torto e a esmo!
Justo e fatal!... Fatal e justo é o mesmo.
No chão não rojes teus cabellos brancos
n'um desespero ignobil! Para arrancos,para entrares no inferno como o Dante,
a dôr da tua cólica é bastante.
Outras não queiras, outras não procures
improprias já de ti. Não; em nenhures
rejuvenesce o Fausto; e, dês que ha mundo,
quem disse um velho—disse um moribundo.
*
Ella não tinha ainda os seus vinte annos.
Por não tel-os vivia n'uns enganos
que eu não devia ter nos meus cincoenta.
Distraída commigo olhou attenta
para um moço qualquer. Nem eu me lembro
do nome d'elle já! Era em setembro.
Isso sei eu. Que noite!... Estou a vêl-a!
Ultima noite azul!... Rasto d'estrella,
curva de luz nos amplos ceus cadente,illuminar-nos veio de repente.
Ella assustou-se, e disse: Dieu te garde!
Pouco tempo depois, horas mais tarde,
tal qual a estrella, em rapido trajecto,
no mundo novo entrou d'um novo affecto.

AO ACTOR JOÃO ANASTACIO ROSA

que, na sua officina de sapateiro, mandára fazer para uso do author umas botas impermeaveis

Boas botas com effeito!
Ha que tempos que te eu digo
que, de pequeno, o teu geito
é ser sapateiro, amigo!
Afóra o bico da moda,
que é moda o bico hoje em dia,
quem da terra andasse á roda
mestre assim não toparia.
E lá no mar,—tens ratices!—
com ellas por sobre as ondas
anda a gente como Ulysses
nas aguas das Trabisondas.
O povo grita: Milagre!—;
teus filhos:—Estamos salvos!—;
e tu com graxa e vinagre
vaes enganando os papalvos.
Queima a Sciencia as pestanas
buscando o que seja aquillo;
e nem passadas semanas
conclue que é sebo de grillo!
Tu proprio chuchas no dedo,
avis rara, ó raio d'ave;
pois ao fechar teu segredo
perdeste-lhe o tino e a chave.
Seja qual fôr teu systema,
graxa só ou graxa e sebo,
eu, indigena na gemma,
applaudo o que não percebo.
De tão prodigioso invento
só entendo, e não é pouco,
que ou me saíste um portento
ou és rematado louco!
Mas que importa qual diploma
um logar nos dá na Historia?
Toda a estrada leva a Roma.
Por atalhos vae-se á gloria.
É certo que ao fim da vida
a luz do provir é tua:
luz accêsa sem torcida!...
porta aberta com gazua!—
Vê quanto o sec'lo é fecundo!
Vê; regista em tuas notas.
Em poucos annos ao mundo
botou dois homens das botas!

ÁS RÃS PEDINDO REI

Traducção da fabula de Lafontaine—Les Grenouilles