Quem diria, senhores, o que no ultimo quartel do seculo teriamos de presenciar n’esta nossa terra tradicionalmente fiel ás instituições, cégamente obediente aos poderes constituidos, amante do seu Rei e de toda a sua Excellentissima familia (como se diz em Monsão)—n’esta terra onde, depois que os legendarios 7:500 bravos implantaram e regaram com o seu sangue o systema constitucional, inaugurando essas grotescas bambochatas, chamadas eleições, nunca os nossos antepassados tiveram a ousadia de contestar a opinião, as ideas do Senhor Administrador, embora ellas fossem tão extraordinarias e tão estramboticas como o dizer-se agora—por exemplo—que o sr. José Narciso não acceita a legitimidade dos direitos do Senhor D. Miguel de Bragança; que o Senhor Velloso, com o seu bigode negro e a alvura immaculada do seu collete branco, não é, para as damas, o mais esbelto e airoso joven, que terras de Portugal téem exportado para a nossa galeria aduaneira, ou ainda, que o Senhor Agostinho não significa na politica um caudilho poderoso, um sectario fiel, seguro e intransigente do partido progressista—regenerador—constituinte—reformista esquerdista—republicano—socialista.
Mas, perguntarão Vossas Excellencias, não faz Valença parte d’um circulo? Não téem os seus habitantes, como os d’outras terras, semelhantemente illustres—Fornos de Algodres, Terras de Bouro, Cannas de Senhorim—direitos e regalias que a Carta Constitucional da Monarchia concede para a amplissima e plenissima liberdade da opinião, em materia de eleições?
Verdade é.
Temos os mesmos direitos e á custa do mesmo preço...
Pagamos religiosamente as nossas decimas, as nossas congruas, sem contestações, nem aggravos, desprezando, até, com generosa e espartana altivez os quebrados, os dois, tres e quatro reis—uma ninharia—que o Senhor Recebedor, escravo dos dictames da sua consciencia, á força nos quer devolver.
Mas, eu recorro á Historia, a que Thierry chama «espelho da verdade» e Michelet «guia do futuro» para affirmar e provar, urbi et orbi, a inflexivel immutabilidade das opiniões politicas da nossa terra, recordando factos que, fiel e genuinamente, exprimem e caracterisam a superior orientação, que aqui existe sobre os direitos do cidadão—factos que não architecto com materiaes da Phanthasia, nem illumino nas penumbras dos tempos remotos, porque são rigorosamente exactos e coevos da geração que passa.
Approximava-se, ha annos, o dia em que o povo soberano, forte nos seus direitos, em troca do liberrimo voto a uma tarraçada de vinho, ou a indigestão de calhos na cantina eleitoral de Mestre Pedro era chamado a influir nos destinos da Patria e a metter a sua colherada n’essa sordida e nojenta palangãna, chamada urna, onde com putridas exhalações, referve e azeda a mixordia das ambições estultas, das vaidades irritantes, das pressões odiosas, das promessas fementidas, e em que os ambiciosos e especuladores—os Pausanias e Wilsons de todos os tempos—se refocillam e afocinham, disputando, á dentada, o appetecido osso do arranjo...
Nos campanarios sertanejos agitava-se o badalo chamando o servo da gleba que, de roupa domingueira e quinzena nova, se dispunha a, mais uma vez, com boçal inconsciencia, conspurcar o direito do voto—uma das mais bellas conquistas da liberdade na sua sangrenta evolução atravez de seculos de lucta, producto abençoado da laboriosissima reacção que n’essa enorme retorta, a França, na inferioridade do sudra, na degradação de ilota, nas algemas do escravo, na dependencia humilhante do servo—como elementos componentes—provocaram os raios chimicos da formosissima luz d’essa bemdita, mil vezes bemdita, alvorada de noventa e...
Mas, perdão.