IX
Politiquices[29]

Anda coisa no ar...

A horas mortas, nas sombras da noite, quando as venerandas paternidades desatam pachorrentamente os nastros das ceroilas e extendem as delgadas tibias entre a alvura dos lençoes, deliciando-se com a voluptuosa sensação do linho—quando os technicaphilas experimentam a potencia dynamica do coice e a rigidez do craneo contra os muros e bancos de praça, e as sopeiras, sedentas de luxuria e amor, abrem sorrateiramente a janella para sentimentaes gargarejos com almiscarados artilheiros—quando o beateiro resmunga entre bocejos, n’este meio cá—meio lá, da somnolencia, o ultimo Paternoster, e dois amigos meus, dos respeitaveis e probos, depois do nocturno repasto, se entregam, extramuros, a indigestos estudos de anatomia... patriotica—n’essas horas da noite, repito, nota-se nas ruas de Valença um movimento desusado, extraordinario e inquietador para quem de perto conhece, como nós, a indole pacifica e a habitual obediencia dos nossos conterraneos ao toque militar das oito e meia.

Cruzam-se vultos mysteriosos e sombrios, murmurando rapidamente palavras convencionaes; a frouxa luz dos candieiros projecta nas calçadas a sombra de longos capindós, de amplos libertés com que, indubitalmente, conspiradores sinistros, caras patibulares e alvellicas, se disfarçam e acobertam.

Denuncia-se, emfim, a effervescencia d’uma agitação occulta, surda, quiçá perigosa e violentissima, que prepara para breve, na historia d’este brioso povo, acontecimentos extraordinarios e imprevistos, que hão-de suscitar aos pósteros um ponto de exclamação tão elevado, tão grande e tão alto, como o sr. professor de Verdoejo, como o nariz do sr. dr. Ladislau, ou como um chapéo siamez que, ha um bom quarto de seculo, eu por ahi vejo, nos dias festivos do anno, luzidio e repontante, contra o ether dos céos.

Mercê da perspicacia e actividade do zeloso Commissario das Policias, o sr. Sampaio, está já conhecida a causa de tal agitação; e á amizade, com que esse cavalheiro me distingue, devo eu a possibilidade de aqui a communicar aos meus conterraneos, para tranquillidade das damas nervosas, das donzellas chloroticas e hystericas, que se tenham inquietado com o que acabo de denunciar.

Trata-se d’uma conspiração politica.

Preparam-se traças; urdem-se planos; consultam-se esphinges; interrogam-se oraculos; assediam-se as potestades eleitoraes; arietam-se as opiniões renitentes; hypnotisam-se os refractarios á conversão desejada, e tudo com a intenção sinistra e machiavelica de attentar, nas proximas eleições, contra a soberania e omnipotencia do senhor feudal d’este burgo, de quem tudo-lo-manda, o muito alto, poderoso, e excellentissimo Senhor Administrador do Concelho!!