*
Junta de Parochia
Instituição composta de differentes membros, sob a direcção do Senhor Sampaio e patrocinio do Senhor Agostinho. Nada mais, creio eu, é preciso dizer.
Essa instituição, que n’outras terras presta valiosos serviços á Beneficencia e á Instrucção, jaz ahi na mais abjecta inutilidade.
A manifestação mais evidente da sua actividade, deu-a na importantissima Questão da Porta, com o Senhor Baptista.
A Junta não tem meios; é pobre, vive da graça de Deus. Tem os telhados da Egreja desmantelados; não póde gastar um real em adornos, ou reparos, no interior do templo. Conserva, nos adros, as ossadas dos nossos antepassados—n’esses adros que a gente pisa, onde os cães levantam as pernas e dão muitas voltas, fingindo que se sentam; onde, á noite se baixam as calças e se praticam mil obscenidades. Alli, debaixo d’aquella terra e d’aquella pedra estão os craneos dos nossos parentes, craneos que já tiveram carne, olhos, bocca, labios que acarinharam os nossos paes; estão alli os restos dos braços que aconchegaram ao peito, em noites de amargura e de afflictiva ancia, a cabeça dos nossos avós, quando a febre lhes amortecia os olhos e escaldava as faces.
O respeito aos mortos e o espirito da Religião impõem a urgente exhumação d’essas ossadas e a sua mudança para o cemiterio.
Não póde ser. Não ha dinheiro; a Junta é pobrissima e tem despezas mais urgentes e indispensaveis, como as que se fizeram com a Questão da Porta. Pois não era um escandalo? Ainda que se empenhasse a Cruz de prata! Mas não foi preciso; para isso, para a Justiça, ainda a pobre Junta teve as trinta libras, que a questão levou...
Deus, Nosso Senhor, se lembre, para desconto dos meus peccados, da repugnancia com que nego licença á penna, para reproduzir as ideas que, n’este momento, tumultuam no meu cerebro...