Esses homens organizaram uma manifestação popular, que annunciaram como patriotica e que outros classificaram como politica. Inspirada no amor da Patria, ou na paixão partidaria, essa manifestação, evidenciada nas ruas e nas praças, discutida na Imprensa como expressão dos sentimentos d’uma parte da população, perdeu o caracter, para mim respeitavel, d’um acto isolado da vida particular e adquiriu a importancia d’um facto social, publico e, portanto, sob o dominio da critica.

Abstraio, pois, do meu espirito as relações que me unem a essas individualidades, e nos periodos que vou ordenar para a composição d’este artigo, declaro, outra vez ainda, que aprecio a manifestação promovida por um grupo anonymo de cidadãos e não por um grupo de individuos, d’esta ou d’aquella classe, d’aquella ou d’esta côr politica.

A violencia da phrase com que tenha de censurar qualquer aspecto d’essa manifestação, que me pareça menos digno, não irá, pois, desvirtuar a sinceridade de relações, mais ou menos affectuosas; nem poderá, tambem, ser reputada como indicio de adhesão a opiniões já manifestadas por quem, em identicas apreciações, se deixa desorientar pelas paixões partidarias que levam a applaudir toda a inepcia d’um grupo em que se está filiado, e a estigmatizar qualquer idea, muitas vezes util e proveitosa, suggerida pelos contrarios.

Esta é a missão do critico e praza a Deus que a consciencia nunca me accuse de escrever o contrario do que ella, á luz da imparcialidade e d’um livre criterio, dieta á minha penna.

Nos periodos d’este artigo abandono a feição humoristica dos restantes. Tenho de me referir á crise dolorosa por que actualmente passa a alma da nacionalidade a que me orgulho de pertencer; e n’essa referencia, quando a humilhação nos ruboriza as faces e a recordação das passadas grandezas nos amargura e entristece, o sorriso seria uma villania e a gargalhada seria uma infamia.

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A força inicial dos acontecimentos de 14 do corrente não se póde attribuir á expansão d’um sentimento patriotico, provocada pela recente affronta de Lord Salisbury; na agitação do grupo que promoveu a manifestação não vibrou a alma da Patria: tumultuou o espirito d’um partido.

Mas de qualquer caracter, patriotico ou politico, essa manifestação, nas condições em que se realizou, envolvendo a bandeira nacional e a responsabilidade d’uma povoação, não merece classificação diversa da que se póde exprimir com estas palavras:

foi aviltante para Valença.

Os homens que a promoveram não teem direito á consideração e, muito menos, ao applauso dos seus conterraneos, porque não são patriotas sinceros, nem politicos dignos. São escravos inconscientes da politica sertaneja, d’essa degradante aberração de principios sãos, de crenças firmes, de convicções honestas, que desorienta, humilha e arrasta pela lama da indignidade, caracteres respeitaveis e talentos privilegiados.