Envolveu-se n’essa manifestação a responsabilidade de Valença.

Pois, em nome dos brios d’um povo que é portuguez, em nome d’uma terra que amo, e que se faz respeitar no paiz pela auctoridade intellectual dos filhos que a representam nos mais elevados cargos sociaes—eu protesto contra o labeu infamante, com que o grupo organizador da manifestação de 14 do corrente aviltou a nobilissima attitude da Patria na desaffronta d’um insulto e na defeza de direitos conquistados pelo sangue d’esses heroicos luctadores que,—transpondo novos oceanos e descobrindo novas constellações, arrostando os ignotos perigos do Mar Tenebroso que a phantasia popular envolvera na nebulosa dos mythos, luctando contra a aspereza de inhospitos climas e contra as rudes vicissitudes da guerra,—ás mais remotas regiões, ás mais distantes e mysteriosas paragens, levaram o nome portuguez, desfraldando a bandeira, onde não se lia, como nas dos modernos exploradores inglezes: Infamia e Oppressão, mas:

Liberdade. Civilisação. Progresso.


—Impulsionou-nos, dizem, o amor da Patria.

Discutamos, então, a manifestação, sob esse aspecto.

*

Lord Salisbury, representante d’um povo egoista, perfido e covarde, cuja Historia tem a gangrena da infamia, as pustulas da devassidão e o excremento das villanias, fustigou com o chicote do seu ultimatum as faces de todo o homem que se honra com o nome de portuguez.

A grosseria avinhada do insulto, a brutalidade do attentado contra todos os direitos estabelecidos, a ferocidade do egoismo, a covardia da imposição d’uma besta superior em força, a dolosa argumentação abonatoria do ultimatum e—sobretudo—a consciencia da nossa fraqueza e da nossa impotencia para a defeza energica de direitos indiscutiveis,—afistularam dolorosamente o coração da Patria e, de norte a sul, de oriente a poente, da cidade ao burgo, homens de todas as classes, de todas as condições e partidos, sentindo despertar, redivivo e forte, o espirito da nacionalidade e o orgulho d’outras eras gloriosas, ergueram-se, gritando: Infamia!—e occultaram o rosto, para que n’elle ninguem visse o rubor da vergonha e o vasquejar do desalento.

A Imprensa, o Exercito, a Academia, a Magistratura, o Commercio, a Industria, os Municipios, as Sociedades recreativas, as Agremiações de classes, o banqueiro e o artista, o pobre e o rico,—arrebatados, galvanizados pela mesma chispa de acrisolado patriotismo—disputaram primazia de nobreza nos seus protestos.