Mas no rosto de todos esses homens, na eloquencia dos seus discursos, no ardor das suas invectivas e no esgrimir da sua argumentação, eu vi sempre, evidentes, sinceros, expontaneos e fervorosos, os impulsos de nobilissimos sentimentos.

Resaltava-lhes dos labios a indignação e, a espaços, no avincado da fronte e no amortecido do olhar, eu descubri o anciar d’uma grande dôr e o revolutear infernal do insulto humilhante, que não se póde vingar.

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Um cortejo grotesco, esfarrapado, ululante, recrutado na Parada-velha e avolumado por essa massa anonyma e inconsciente de povo, babugem na onda de todas as manifestações e comparsa indispensavel em todas as farças que tresandem a borga e a quartilhos de vinho, precedia o grupo promotor da manifestação patriotica valenciana.

Lá na frente, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da Patria.

No conjuncto, uma arruaça carnavalesca, uma desordenada fantochada, scintillante de archotes, tocos de sebo e phosphoros de espera-gallego; ruidosa de gaiteiros e caixas de rufo, latas de petroleo, assobios de barro, arrotos, berros asselvajados, graçolas de bordel, acclamações roucas e avinhadas.

Nos olhos, nas faces, na voz, no gesto dos promotores da manifestação patriotica, uma alegria evidente, saltitante, irreprimivel, estoirando nas expansões ensurdecedoras d’um jubilo guindado aos pinos do delirio, pelo sopro bestial d’uma pandorga de encarvoados hottentotes, já celebres na Questão da Santa.

Abraços, fremitos de contentamento, chapeos no ar, demonstrações de affecto, apotheoses jogralescas, guizalhadas de truão, vivas a Deus, ao Rei, ao Regedor da Parochia, ao Exercito, ás Artes, ao pendão das quinas, a Serpa, aos abbades, ao João da Gaiteira.

Á frente, um homem de cabellos brancos agitando a bandeira nacional.