Dominando a turba, no frontão dos Paços do Concelho, o escudo da Patria: a honra portugueza aviltada, as tradições gloriosas d’um gloriosissimo passado, a epopea das Indias, a harpa eolia dos Lusiadas vibrando, soluçante, com os derradeiros alentos do Infante navegador, de Vasco da Gama, de Alvares Cabral, de Affonso de Albuquerque, de Gonçalves Zarco, de Tristão Vaz, de Gonçalo Cabral, de Diogo Cam, de Bartholomeu Dias, de Fernão de Magalhães, de Godinho de Eredia, de Affonso de Souza, de D. João de Castro;—a fulgentissima constellação das nossas conquistas: Ceuta, Arzilla, Cabo Verde, Açores, Madeira, o Brazil, a Guiné, Mombaça, Quiloa, Mascate, Ormuz, Diu, Calecut, Goa, Malaca, Cananor, Ceylão—empallidecendo com os clarões avermelhados da archotada.

E quando o nojento e sinistro abutre inglez, sulcando a escuridão da noite, poisava no frontão municipal e perante a illustre, benemerita e patriotica Commissão manchava, abrindo um pouco as pernas, o escudo da Patria, com o excremento e com o vomito—quando em todas as povoações de Portugal se erguia, energico, o brado da desaffronta e, dolente, o gemido da humilhação—das varandas d’uma casa que pertence ao Estado e que representa, entre nós, a instituição mais nobre, porque é a fiel depositaria das nossas glorias e dos nossos direitos—essas tres palavras ôcas, golfadas, em comica explosão de inconcebivel calinice, sobre os ervaçaes de Paysandu:

Viva Valença... restaurada!

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Fumemos um cigarro para espalhar tristezas...............................

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Continuemos.

Á frente, sempre á frente, rindo, e chorando lagrimas de pathetica sensibilidade, um homem de cabellos brancos, agitando a bandeira da Patria.

E ao longe, mais ao longe, para lá do Minho, essa nação cavalheiresca, como nenhuma, quando offendem os seus brios: a patria do Cid, de Cortés, de Pizarro e de Balboa; povo altivo que diz aos seus reis, em Aragão: nós, que valemos tanto como vós; que impõe a Carlos I pela bocca de Padilla, heroico chefe dos cumuneros, o codigo das suas liberdades; que ainda, ha pouco, se convulsionava fremente e ameaçador perante a reclamação ingleza do Chanceller de ferro—povo rico de generosos enthusiasmos e enthusiasta de generosas ideas, nosso irmão de raça e companheiro nosso nas aventurosas emprezas d’alem mar—essa nobilissima Hespanha, escutando, absorta e commovida, os ruidos da bacchanal, o tumultuar da arruaça, o cornetear dos hymnos e a vozearia da magna caterva.

E quando esse povo, pela bocca da sua Academia, do seu Exercito, da sua Marinha, das suas Sociedades de Geographia, nos enviava calorosos brados de affecto e nos insufflava alento e coragem—a illustrada, benemerita e patriotica Commissão promotora da manifestação erguia aos ares saudações á Hespanha e desfilava perante o representante d’aquella nação, em marcha fandanga, ao compasso esbodegado do hymno da Restauração!