Á nota burlesca, a nota grosseira.

*

Quem hoje possue vagas noções de Historia patria, no mechanismo da sua evolução politica, reconhece, com verdadeiro desalento, quanto tem sido errado o plano das nossas allianças.

Desprezaram-se as affinidades da raça, a continuidade do solo, a homogeneidade das aspirações, a reciprocidade dos interesses, a egual fertilidade do clima, a riqueza dos productos, todas essas especialissimas condições de independencia e de defeza que, aproveitadas para beneficio commum em estreita alliança de dois povos—garantidas a liberdade e a autonomia das instituições politicas de cada um—podiam tornar a Peninsula uma facha de terreno inexpugnavel e inaccessivel ás ambições de qualquer despota.

Com o rapido exame d’um mappa, a Natureza nos indica as vantagens d’essa alliança com a Hespanha.

As truanescas manifestações do Primeiro de Dezembro invariavelmente ajoujadas a uma oratoria desenxabida e bolorenta, cinzelada a largos traços pelo escopro da Rotina, mirabolante de imagens sediças colhidas nos marneis paludosos d’um sentimentalismo piegas em materia de patriotismo—acirrando odios contra quem respeita a nossa autonomia, acata os nossos direitos e liberdades, e partilha, com egual dedicação, o nectar das nossas alegrias nas grandes consagrações civicas e o fel das nossas amarguras n’estes tristes dias de decadencia—devem banir-se para sempre em terras, como esta, que merecem cotação intellectual superior á de Paio Pires.

Os sessenta annos do captiveiro chocalham constantemente nos cerebros dos gafados patriotas, para despertarem no povo o espirito da sua nacionalidade e a altivez da sua autonomia. Mas esse periodo sumiu-se nas brumas do Passado e pela heroicidade dos quarenta immortaes—o que é muito discutivel—ou por circumstancias occasionaes e propicias á nossa emancipação, ha duzentos e cincoenta annos que somos livres e independentes, entre as demais nações da Europa.

Transmittimos aos nossos filhos esse odio á Hespanha; sobre os bancos das praças, golfamos, em façanhuda oratoria, rancorosas recordações dos Filippes, das luctas da Independencia, das agruras do captiveiro, do despotismo de Olivares; e, entretanto, entra-nos John Bull em casa, empalma-nos as mais ricas colonias, impõe-nos esses vergonhosos tratados de 1642, 1661, 1703 (Metwen), 1810, 1842, 1878 e esse celebre tratado de Lourenço Marques, em que os dois actuaes partidos da nossa politica teem graves responsabilidades, um porque o redigiu, outro porque o approvou, embora modificado.

A Hespanha subjugou-nos por 60 annos. A Inglaterra subjuga-nos ha perto de tres seculos, dispondo da nossa Politica e absorvendo lentamente todos os elementos da nossa riqueza e da nossa vitalidade. Com a Hespanha não queremos relações, porque todos os nossos affectos são para a Inglaterra, que nos acorrenta a allianças, onde ha perfidias e traições, e nos socorre, quando lhe convém—com exercitos de bandidos que devastam e roubam este desgraçado paiz com sofreguidão superior á do inimigo, que nos forçou a pedir soccorro.

A Hespanha festeja e acolhe bizarramente os nossos exploradores. A Inglaterra sorri desdenhosamente, orgulhosa de Stanley, o feroz Attila dos sertões africanos. E quando nos vê abatidos, impotentes e pobres, insulta-nos pelas boccas do poltrão Bright, do troca-tintas eleitoral Salisbury e por essa horda de bandalhos, redactores do Times e do Standart, assalariados para abafarem as asquerosas applicações dos Telegraph’s boys.