*

Este homem, lendo o que escrevo deve considerar-se offendido pela rudeza da ironia.

Oxalá que a caterva dos falsos amigos, que o guindaram para o andor do Ridiculo, o respeitassem como eu o respeito e venerassem, como eu venero, a sinceridade das suas crenças!

Homem de 34!

Escuta:

A minha idade é muito inferior a metade dos teus annos. Entrei no periodo activo da vida, quando já estavam suffocadas as agitações politicas a que assististe. Não tenho relações intimas comtigo, mas respeito-te, porque és dos homens que trabalharam e soffreram para eu gosar as liberdades d’esta epocha. Não tenho a experiencia da vida que tu tens, mas peço-te que attendas ao que te vou dizer, porque conheço, melhor do que tu, os individuos que nos rodeiam, a natureza dos seus sentimentos e a sinceridade das suas crenças. Quando a minha razão principiou a funccionar, já por ahi lavrava, intensa, a immoralidade, e os homens, pela irrefutavel logica dos factos, encarregaram-se de inutilizar no meu espirito as illusões que tu ainda conservas, porque vives um pouco arredado d’elles.

Escuta, pois!

Quem, como tu, soffreu as deploraveis consequencias das nossas dissenções politicas e provou o fel d’essa malfadada epocha, em que dois partidos, irmãos no sangue, se perseguiam com encarniçado odio, a tiro, a faca, a cacete e a machado,—quem, como tu, avaliou os dolorosos transes e as indescriptiveis angustias que infernaram a alma das familias e dilaceraram os affectos d’uma povoação, constantemente sobresaltada com a incerteza nas vidas e com a noticia das mortes,—quem conheceu os horrores da fome, as tristezas do exilio, os negrumes do futuro,—quem viu o corpo d’um portuguez baloiçar-se, sinistramente, na forca infamante, e viu as costas d’um homem esfarrapadas pela chibata do corneta,—quem teve amigos que foram assassinados a machado em Extremoz, arrastados, semi-vivos, pelas ruas do Porto, espingardeados nas linhas e no reducto dos Mortos, garrotados em Lisboa, fusilados em Vizeu,—quem viu cabeças, gottejando sangue, espetadas em mastros e ouviu falar das ferocidades do Telles-Jordão e do seu menino, bestiaes cerberos de S. Julião,—quem escutou por todo esse paiz o choro afflictivo das viuvas, o soluçar das creanças e o estertor dos moribundos entre as ruinas da Patria, ennegrecidas pela fumarada do incendio e avermelhadas pelo sangue fratricida,

homem de 34!

quem viu e ouviu tudo isso, nunca deve contribuir com a sua presença e com o seu applauso para acirrar o odio dos partidos, ou para estimular em terras pequenas, como Valença, essas divergencias de opiniões que, levadas pela allucinação á infamia das vinganças e ao rancor das represalias, podem preparar, no futuro, nova serie de horrores, como os que tu viste e como os que tu soffreste.