Na quarta-feira santa, entra um rapazito no portal; bate as palmas—sou eu!—faz favor?—e entrega uma perfumada caixinha, toda alegre e catita, oiro e setim azul, recheada de amendoas e confeitos.
No fundo espreguiça-se sorrateiramente uma carta.
Rubôr ás faces, noventa pulsações por minuto, leitura tremula, arfar de seios, um suspiro, dois suspiros.
Lê-se, relê-se e torna-se a relêr a carta.
Trabalha o ferro de frisar com mais cuidado, estuda-se uma prega mais graciosa para a mantilha, flor ao peito para o que der e vier, e—entra a comadre na egreja.
Quando abre o livro das orações, já não atina com o Padre-Nosso nem com a Ave-Maria. Com os olhos da imaginação, só vê e lê os caracteres seguintes:
Minha senhora.
Vel-a e amal-a, foi obra d’um momento. Quiz a fagueira sorte escolher-me para compadre de Vocellencia. Bemdita seja ella que me aproximou de quem, ha muito tempo, é o enlevo dos meus olhos, a alegria da minha alma, a ventura do meu coração. Tomo a ousadia de offerecer a Vocellencia as amendoas «inclusas». Desculpará Vocellencia. Na minha terra fazem-nas muito bem feitas. Doces d’ovos e amendoas são as especialidades. Se o Papá e a Mamã gostarem, eu mando vir mais. É bom comer poucas, porque são muito indigestas e fazem dôres de barriga. Serei correspondido n’este meu amor? Oh ceos! Quanto anhelo sabel-o! De Vocellencia
até á morte