Qual é o fim das procissões?
Qual a sua necessidade?
São para avivar as crenças?
Que ha, por esse mundo de Christo, mais ridiculo e caricato do que Santas Cocas, bois bentos, S. Jorges de carne ou de madeira, isto é, com tarracha, ou sem ella, prophetas com barbas de crina, pendões em varas de pinheiro por descascar, gaiteiros aos pinotes, matulões de cara aparvalhada e cabello empastado com gomma de pevides de marmelo?
Que ha, por ahi, de mais barbaro e deshumano, senhoras de Valença, do que essa perigosissima exposição a que, por vaidade, condemnaes os membros ainda tenros das creanças, carregadas com adereços de pechisbeque e diamantes de vintem, peito e braços nus, tiritando e caminhando custosamente, com os pesitos entalados nos escarpes do uniforme, e atiradas, por essas ruas, á voracidade das bronchites e pneumonias que o frio origina, ou das febres e meningites que o calor provoca?
Dizei-me: a Christo, se é a Christo que desejaes honrar, não seria mais agradavel que essas duas libras, com que entraes em ajuste d’uma pneumonia para vossos filhos, lhes fossem entregues para, com ellas, na bemdita missão da Caridade, penetrarem n’uma d’essas barracas da Parada-velha e as deporem nas mãos tremulas e descarnadas do pobre velho que tem fome e frio aos 80 annos, illuminando-lhe assim com a luz do céo, com a luz de Deus, aquelle tenebroso occaso de soffrimento e dôr?
E quando a creança voltasse a casa, risonha e feliz, como Deus a sabe dispôr, ao fazer d’ella a mensageira do Bem, não seriam para vós mais agradaveis as lagrimas da gratidão do pobre entrevado que, como perolas, deslizassem ainda nas mãos pequeninas, do que esse immundo cartucho de papel mata-morrão com doces de farinha de milho e assucar mascavado—suprema delicia dos matulões da Urgeira—com que o boçal e estupido Juiz da festa lhe paga o papel de comparsa?
Senhoras de Valença, que tendes filhos! Pensae n’isto...
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A procissão, que os Paes de familia mais respeitam, é a de Corpus-Christi.