Por isso, chafurda na insulsez parrana, na graçola afadistada, na metaphora besuntona.
Ao brazileiro barato, ao fidalgo sem pergaminhos e a outros escarros-piadas, que por ahi fluctuam á tona da enxurrada, corresponde esse constante martellar de bordões estafados, do gaiteiro, do João Bernardo, com que ainda hoje a fedelhada sahe á estacada, empunhando a babuzeira e acenando a quem passa com outro Ideal e com outras armas: não o insulto soez á familia, mas o sorriso caustico do epigramma á individualidade social.
A Imaginação e a Phantasia vasam-se, por ahi, nos moldes d’uma linguagem mascavada, em que pullula o neologismo pretencioso, d’onde resalta a phrase de sensação dos ultimos figurinos, que o francez atira, por cima dos Pyreneus, como uma bota cambada e velha, e que o rabiscador, prestes, enfia nos pesunhos para, coxeante e rufião, seguir em truanesca marcha, campos fóra da critica e da... tolice.
Esfuzia, frequentemente, o gallicismo inutil nas espalmadas linhas; é constante a referencia ôca á lombada das recentes publicações francezas; e, n’uma epocha em que o mercieiro fala na Sapho, de Daudet, ri com as frescuras de Catulle, estremece com as Blasphemias de Richepin, salta com as pinturas realistas de Zola, entretem a familia com os Goncourt e auxilia a chylificação com Maupassant ou Coppee, a arlequinada do rabisca, não só denuncia ignorancia completa da nossa litteratura e dos recursos da nossa lingua, mas, ainda,—com a impropriedade dos termos, apanhados a dente e atacados a soquete sublinhado nos periodos—uma deploravel vaidade e tristissima inconsciencia.
Não ha orientação litteraria, nem eschola definida, nem percepção nitida da idea, nem consciencia na phrase, nem centelha de imaginação que desperte a vibratilidade da nossa alma. Ha, d’um lado, a atrophia voluntaria e criminosa, a que se condemnam faculdades intellectuaes de superior quilate, e d’outro, a ambição ridicula e chatissima de se mostrar á familia—ao papá e á mana, ao titi e á prima, ao namoro e á sopeira—o nome em lettra redonda, claro, ou nas malhas transparentes d’um pseudonymo, que o sorrisinho immodesto descobre ao primeiro e desejado ensejo.
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Poderá alguem suppôr com estas minhas reflexões, tão discordantes na fórma, das hosannas, que por ahi se entoam, impostas pela nojenta convenção do elogio mutuo, que nego merecimentos, ou repudio aptidões intellectuaes?
Tal não succede.
De quando em quando, aqui e acolá, mesmo n’esses a quem a vaidade e o pedantismo desnorteiam, descubro e reconheço os vestigios d’uma expontaneidade de phrase, evidente; d’um colorido de expressão, notavel; d’uma receptividade emocional, definida; d’uma accommodação visual para a analyse, apreciavel;—propriedades que, vigorizadas pelo trabalho, orientadas pelo estudo persistente nos bons modelos e impulsionadas para um Ideal, podiam educar-lhes o espirito e eleval-os, porventura, á consideração que ambicionam e que criminosamente lhes attribuem.
O que eu desconheço é:—o trabalho; o que eu censuro é:—a inercia; o que eu repudio e calco aos pés, é essa perfida e nojentissima convenção, que faz do cinco reis de gente um Adamastor, do balbuciante bebé um polemista, do Rosalino Candido, um Ramalho Ortigão, ou, como elles diriam, de Prudhomme, um Pierre Veron, ou Albert Wolff.