A penna exprime a Idea. A Idea parte do cerebro. O cerebro significa a Intelligencia, a Alma, isto é, o conjuncto da sensações e sentimentos, que na sua phenomenalidade, separam o Homem do bruto.

A faculdade de sentir e a expressão nitida e clara, pela penna e pela palavra, de todos os phenomenos da natureza psychica, são o que o homem tem de mais nobre.

Triste é, portanto que, na critica d’um facto, na discussão d’uma idea, no desforço d’uma aggressão, eu vá encontrar aptidões intellectuaes com elementos tão apreciaveis, na choldra da Politica, ou descendo, ainda, tanto e tanto, que se não pejam com a pasquinada a carvão nos logares, onde o carrejão usualmente se encosta, para... ensalitrar as paredes.

*

E no grupo dos que a inercia atrophia, dos que deviam libertar-se para outras espheras mais luminosas e mais puras, porque já possuem na Imaginação e na Phantasia a vigorosa organização do condor, vejo eu um homem—que sabe burilar preciosamente a idea, que filigrana artisticamente a palavra—debater-se, na triste condição de bonifrate, movimentado pelas guitas dos especuladores, transformando o cerebro, d’onde arranca chispas d’um verdadeiro talento, na bola ensebada e porca dos jogos malabares que os politiqueiros por ahi exhibem, visando á esportula dos magnates.

E como se não fosse profanação bastante, o manchar a penna nos bispotes, em que essa megéra—a Politica—diariamente evacua, ainda ha pouco manchou tambem os labios d’onde, palpitante, quente, phantasiosa e bella, lhe resalta a palavra, na dentuça cariada e porca d’um salta-pocinhas eleitoral agargalado!

Suprema humilhação do talento!

Pudesse eu agarrar-te pela golla do casaco e, applicando-te em certa parte do corpo duas palmadas, fazer actuar no teu espirito, incisiva e caustica, a affectuosa indignação, com que d’aqui te brado:

Livra-te d’esse chiqueiro, homem de Deus![25]