—Mas para que foi que a mamã assumiu esses modos tão solemnes, para que estará a desperdiçar toda essa eloquencia, esses pormenores tão escusados e penosos que ambas estamos fartas de conhecer? interrompeu a Zina com enfado.
—Porque a mim, que sou tua mãe, Zina, me assiste o dever de me justificar a teus olhos. E demais, quero apresentar-te este negocio, todo elle, sob uma luz nova para ti e que é a unica verdadeira. Emfim, sem estas promessas, não poderias comprehender a conclusão que d'ellas pretendo deduzir. Não creias, minha filha, que intento fazer pouco dos teus sentimentos. Não Zina, has de encontrar em mim uma verdadeira mãe, e quem sabe se não serás tu a propria a cair-me aos pés, lavada em lagrimas, a supplicar-me que conclua essa reconciliação á qual o teu orgulho se nega ha tanto tempo. Tenho pois que recapitular as coisas desde o principio, ou calar-me.
—Fale, repetiu a Zina, a maldizer de todo o coração a grandiloquencia maternal.{53}
—Continúo, Zina. Esse tal utchitel da escóla communal, um fedêlho, por assim dizer, produziu em ti inconcebivel impressão. Contei sempre com que o teu sizo, a elevação dos teus sentimentos e tambem a indignidade do individuo, (visto que é preciso dizer tudo) evitariam qualquer approximação entre tu e elle. E de repente, vens ter commigo e declarar-me com firmeza que tens tenção de casar com elle. Foi uma punhalada que me déste no coração, Zina! Soltei um grito e caí sem sentidos, mas... não deixarás de te lembrar do incidente. É certo que julguei necessario empregar n'aquella occorrencia toda a minha auctoridade: e por signal que a acoimaste de tyrannia. Reflécte, pois: um garotête, filho d'um diatchok,[[4]] com um salario de doze rublos mensaes, um escrevinhador de máus versos que lhe imprimem por dó na Bibliothéca de Leitura, que não sabe falar em outra coisa a não ser n'esse maldito Shakspeare,—aquelle fedêlho, teu marido! marido da Zinaida Moskalieva! São coisas que só acontecem nas novéllas pastorís de Florian. Perdão, Zina, mas quando me lembro de tal, saio fóra de mim! Neguei-me a consentir. Não houve influencia que conseguisse convencer-te. Teu pae, naturalmente, manteve-se na neutralidade, incapaz de comprehender-me quando tentei expor-lhe o caso e sem saber fazer outra coisa além de pestanejar. Mantens relações com esse garoto, proporcionas-lhe até ensejo de te ver, e o que é ainda muito peor que tudo isso, tens o arrojo de lhe escrever! E as más linguas desde logo a trabalhar! Fazem{54} allusões offensivas na minha presença. Estão a pular de contentes, a embocar as mil trombetas da calumnia. As minhas antecipações a semelhante respeito vão se realizando uma por uma. Dá-se entre ti e elle um desaguizado e elle manifesta-se indigno de ti. Ameaça-te de mostrar as tuas cartas, e tu, num assômo de justa indignação, dás-lhe uma bofetada!... Sim, Zina, conheço tambem essa circumstancia, estou inteirada de tudo—de tudo, sim! Esse traste, n'esse mesmo dia, mostra uma das tuas cartas áquelle miseravel do Zanchine, e, d'alli a uma hora a carta está em poder da Natalia Dmitrievna, minha inimiga figadal! Á noite, aquelle, doido, arrependido já de semelhante acção inqualificavel, por toleima tenta envenenar-se! N'uma palavra, um escandalo medonho! Aquella pécora da Nastassia accode toda assustada, a participar-me que ha uma hora que a Natalia Dmitrievna se acha de posse da tua carta: não se passarão duas horas, sem que a cidade em pêso apregôe para ahi a tua vergonha. E eu a esticar os nervos para não caír para ali inanimada. Que lance, Zina! Aquella descarada, aquella desavergonhada!
A Nastassia exige duzentos rublos para inutilizar a carta. Eu propria, deito a correr, com os sapatos de trazer por casa, até, atravéz da neve, para ir a casa do judeu Bumschtein empenhar o meu abrochador, recordação da minha virtuosa mãe! D'alli a duas horas tinha a carta em meu poder: roubou-a a Nastassia: arrombou uma boceta e está salva a tua honra. Nem vestigios, sequer! Mas que dia de angustias! Logo ao outro dia, encontrei entre os meus cabellos immensos fios brancos,—os primeiros, Zina! Tu foste a propria a avaliar até que ponto era indigno de ti{55} aquelle garoto, pois concordas agora, não sem amargura, talvez, que teria sido uma loucura entregar-lhe o teu destino. Depois, comtudo, pégas a atormentar-te, a soffrer, não podes varrêl-o da lembrança,—não a elle,—foi sempre coisa tão rasteira que a tua vista nem sequer podia deter-se n'elle,—mas ao teu primeiro sonho de amor. Hoje, esse desgraçado está a expirar—nem sequer já se levanta.—Dizem que morre tisico, e tu—anjo de bondade,—não queres casar emquanto elle fôr vivo; para lhe poupar soffrimento, visto que é ciumento... e não obstante, nunca te teve amor, tenho a certeza, amor sincero, elevado! O que o não impede de espionar os passos do Mozgliakov, de te rondar a casa, de tirar indagações...—Tens dó delle, minha filha, adivinhou-te o meu coração, e Deus sabe as lagrimas amargas que me tem encharcado o travesseiro.
—Veja se acaba com tudo isso, mamã! atalhou Zina com enfado. O seu travesseiro não vem cá fazer coisa nenhuma! Não poderá falar com singeleza?
—Não me acreditas, Zina! Não me trates tão mal, minha filha! Já lá vão dois annos, e não faço outra coisa senão chorar, mas tenho-te encoberto as minhas lagrimas, Zina, durante esses dois annos mortaes!... Ha muito tempo que conheço os teus sentimentos. Medi todo o alcance da tua magua. Poderá alguem lançar-me em rosto, minha querida, o haver considerado semelhante ligação como uma phantasia romanesca, nascida sob a influencia do tal maldito Shakspeare? Qual seria a mãe que condemnasse os alvitres de que tenho lançado mão e achasse rigoroso em demasia o modo por que avalio este caso? E comtudo, a mim propria represento o teu longo padecer, comprehendo{56} e apprecio a tua sensibilidade. Acredita: comprehendo-te melhor, talvez, do que te comprehendes a ti propria. Estou certa de que o não amas, a esse garoto ridiculo: a quem tu amas é ao teu sonho, á tua ventura mallograda, ao esvair das tuas illusões. Eu tambem amei, não cuides que não, e com mais excesso de paixão do que tu; tambem eu padeci; tinha tambem as minhas illusões!... Não falo pois sem experiencia, e se affirmo que uma alliança com o principe representaria para mim a salvação, mereço talvez que me dêem ouvidos.
A Zina ouviu com espanto aquella estirada declaração, farta de saber que a mamã nunca assume aquelle tom pathetico sem designio occulto. E comtudo, a conclusão deixa confundida a joven.
—É pois a sério, que fala em casar-me com o principe? exclama pasmada a considerar a mãe que assumiu attitude majestatica; não é então uma hypothese, como se dissessemos? É tenção firme e assente, pelo que vejo? Mas... como é que poderia salvar-me semelhante casamento? E... e... que relação terá tudo isso com o que acaba de expôr-me, com essa historia toda?... Declaro que a não percebo, mamã.
—E a mim, meu anjo, espanta-me que o não percebas! exclama Maria Alexandrovna, com subita animação. Primeiramente, o facto só por si de teres de transferir-te para outra sociedade, para um mundo differente; de teres de dizer adeus de uma vez para sempre a esta nojenta cidade das duzias, semeada para ti de tão temiveis recordações, á qual te não prende a minima affeição, onde te assacaram calumnias, onde essa sucia de pêgas te detestam por{57} causa da tua formosura, esse facto só por si, repito, é já capital. E depois, podes, ainda esta primavera, ir para o estrangeiro, para a Italia, para a Suissa, para a Hespanha,—Zina—para a Hespanha, onde irás ver a Alhambra, o Guadalquivir! Não estarás farta d'este immundo riacho de Mordassov, com aquelle seu nome inconveniente?