—Mas se me dá licença, mamã! está falando como se eu já estivesse casada, ou pelo menos como se o principe me tivesse já pedido em casamento...
—Lá quanto a isso não te dê cuidado, meu anjo, sei o que estou dizendo. Deixa-me continuar. Eu disse primeiramente, e ahi vae o segundo ponto: Comprehendo, minha filha, quanto te contraría o dares a mão de esposa a este Mozgliakov...
—Sei muito bem, nem preciso de que m'o digam—que nunca serei sua mulher! interrompeu Zina com arrebatamento.
—Se tu soubesses, meu amor, como eu avalio essa repugnancia! É terrivel o ter que jurar perante o altar de Deus amor e fidelidade áquelle a quem se não pode ter amor! É terrivel o pertencer a um homem a quem se não pode respeitar. E todavia, exigir-te-hia amor; foi para te possuir que elle casou comtigo: isso adivinha-se nos olhos que elle te deita quando não olhas para elle. Mas como simular perpetuamente amor? Ah! minha filha, aqui estou eu que ando a padecer ha vinte e cinco annos com esta comedia necessaria. Teu pae deitou-me a perder. Posso afirmar, até, que envenenou de todo a minha mocidade, e quantas vezes não terás visto correr as minhas lagrimas?{58}
—O papá está no campo; não esteja a atacál-o, por quem é!
—Sim, tu saes sempre em sua defêsa, bem o sei... Ah! Zina! Confrangia-se-me o coração quando a prudencia me obrigava a desejar o teu casamento com o Mozgliakov! Com respeito ao principe, com esse não tinhas tu necessidade de representar nenhuma comedia. Escusado é dizer que lhe não poderás dedicar o que se chama amor. E demais, elle proprio é incapaz de exigir semelhante amor.
—Que disparate, meu Deus! E eu affirmo-lhe que se engana de meio a meio: não tenciono sacrificar-me,—ignoro aliás o fim com que o faria. Fique sabendo que não quero casar. Não casarei seja com quem fôr; ficarei solteira. Tem-se farto de me atormentar ha dois annos para cá, por causa de eu ter rejeitado quantos noivos me tem apparecido, mas não tem remedio senão conformar-se; não quero, já disse!
—Zinotchka, não te alteres, pelo amor de Deus, sem me ouvires, meu amorzinho! Que cabeça tão esturrada! Consente em que eu te exponha o caso em conformidade com o meu modo de ver, e verás que has de vir a concordar commigo. O principe poderá ainda viver um anno, dois, talvez, mas não vae além, com certeza. Ora, mais vale ser viuva e nova do que velha solteirona, isto sem falarmos em que depois de elle fechar o olho ficas sendo princêsa, rica e livre. Minha querida, desprezas talvez estes meus calculos baseados na morte de um homem, mas sou mãe, e quem haverá ahi que condemne a minha previdencia? Em conclusão, se tu, anjo de bondade, ainda tens pena d'esse tal garoto, se tu, conforme eu suspeito, não queres casar emquanto{59} elle fôr vivo, considera que, se casares com o principe, vaes resuscitar aquelle a quem amas! Se é que a elle lhe restam ainda uns vislumbres de bom senso, comprehenderá, manifestamente, que o ter ciumes a respeito do principe, seria coisa fora de proposito, ridiculo. Comprehenderá que não casas com este velho a não ser por interesse, por necessidade. N'uma palavra, comprehenderá... quero dizer—depois de fallecido o principe, já se vê,—que poderás casar segunda vez, se fôr da tua vontade...
—Casar com o principe, expoliá-lo, e estar á espera de que elle morra para depois ir casar com o meu amante, não é assim? É muito habil; quer seduzir-me propondo-me... Percebo-a á legua, minha mãe, percebo-a optimamente. Só o lembrar-me eu de que não pode deixar de fazer alarde de nobres sentimentos, até, n'um negocio tão pouco limpo? Seria muito mais estimavel o dizer-me, singelamente: "É uma ignominia, Zina, mas é lucrativa; e portanto, acceita." Sequer ao menos era mais franco.
—Mas que teimosia será essa tua em encarar o negocio no ponto de vista da trapaça, da arteirice, da cobiça? Consideras os meus calculos como uma soez hypocrisia; mas, em nome de quanto venéras como mais sagrado, onde estará a baixeza, onde a hypocrisia? Vê-te bem n'aquelle espelho: és formosa o sufficiente para conquistares com esses teus olhos, sem mais nada, um reino! E tu, tão formosa, sacrificas a um velho os teus melhores annos; tu, estrella magnifica, vaes embellezar-lhe o occaso da vida; tal qual a hera viçosa, florir na sua velhice! Está afeito á companhia de uma feiticeira que o sequestra lá n'um canto do mundo, e d'essa feiticeira, és tu, tu, Zina, quem vaes ser successora!{60} O dinheiro e o titulo d'elle podem lá equiparar-se ao teu valor? Onde vês pois n'isto a baixeza, a hypocrisia?