Nem sabes o que estou dizendo, Zina!

—O dinheiro e o titulo d'elle valem mais do que eu, visto que para os alcançar, teria que resignar-me a casar com um enfermo. Dêmos ás coisas os seus nomes: é uma ignobil hypocrisia, mamã!

—Pelo contrario, minha querida, pelo contrario! O caso pode até ser encarado de um ponto de vista superior, christão. Declaraste-me, um dia, em um assômo de enthusiasmo, que querias ser irmã da caridade: o teu coração exaltara-se de amor ao pensares nos humanos soffrimentos, outro qualquer amor parecia-te tibio e mesquinho. Pois bem! Se ainda queres acreditar no amor, acredita na dedicação, com sinceridade, tal qual uma creança, com candura. Dedica-te, e abençoar-te-ha Deus! Tem padecido este velho; é desditoso, perseguem-n'o. Conheço-o ha muitos annos e sempre lhe dediquei incomprehensivel simpathia, carinho, por assim dizer: presentia o futuro. Sê sua amiga, minha filha, seu brinquedo, até, se é forçoso dizêl-o, mas aquenta-lhe o coração e fál-o por amor de Deus! Admittamos que é ridiculo? Elle nem sequer d'isso tem consciencia. Não chega a ser a metade de um homem. Tem dó d'elle, tu, que és christã. Contrafaze-te; com força de vontade consegue-se domar a alma para semelhantes façanhas. Quanto não custa o pensar as chagas nos hospitaes, com que repugnancia se não respira o ar viciado dos lazaretos: mas não ha anjos que desempenham sem asco essas repugnantissimas taréfas e que ainda dão graças a Deus pela triste sorte que lhes coube? E ahi está o remedio de que{61} tanto necessitava o teu magoado coração: uma tarefa heroica! Onde vês tu n'isto egoismo? Baixeza? Não me acreditas, suppões que estou representando uma comedia, não podes comprehender que uma mulher mundana, n'este meio de viver leviano, possa ter uns sentimentos de tanta elevação? Pois bem, não me acredites, minha filha! Desconfia do coração de tua mãe! mas sequer ao menos concorda em que as minhas palavras são sensatas e salutares. Esquece que sou eu quem te estou falando, fecha os olhos, volta-me as costas e põe na tua ideia que é uma voz misteriosa que estás ouvindo... O que acima de tudo te prende, é a questão de dinheiro, essa apparencia de compra e venda. Pois bem, rejeita o dinheiro visto que lhe tens tamanha aversão, acceita apenas o necessario, e o resto, dá-o aos pobres. Por exemplo, estende o teu braço áquelle desgraçado que está ás portas da morte.

—Elle nunca acceitaria, disse a Zina, baixinho, como se estivera falando comsigo.

—Dado o caso de que elle rejeite, lá está a mãe para o acceitar em nome d'elle, responde Maria Alexandrovna sentindo que conseguiu acertar-lhe com a corda sensivel. Acceitará sem que elle proprio o saiba. Já vendeste os teus brincos (presente de tua tia) para lhe accudir, ha seis meses, que eu bem o sei, e tambem sei que a mãe, a pobre da velha, anda a lavar roupa para sustentar o filho.

—Dentro em pouco deixará de precisar seja do que fôr.

—Comprehendo-te! apanha de relance Maria Alexandrovna, (accode-lhe uma inspiração, uma verdadeira inspiração.) Dizem que morre tisico: mas quem é que o affirma? Indaguei a seu respeito, ha dias, do Kalist-Stanislavitch... {62} Pois sou a primeira a interessar-me pelo pobre rapaz, tambem tenho coração, Zina! E o Kalist-Stanislavitch respondeu-me que a doença é grave, não ha duvida, mas que, até hoje, existe apenas uma forte affecção dos bronchios,—tu mesmo lh'o podes perguntar. E accrescentou que a mudança de clima, impressões fortes, podiam curar o doente. Contou-me elle que, em Hespanha—e já não é a primeira vez que o oiço... li-o, até—ha uma ilha extraordinaria, Malaga, creio eu... emfim, um nome que lembra o de um qualquer vinho—onde não só os que padecem do peito, mas até os proprios tisicos saram de todo, graças ao clima. Vão ali tratar-se fidalgos, e commerciantes ricos. Que elle, effectivamente, a Alhambra—esse palacio encantado—as murtas e os limoeiros, os hespanhoes a cavallo nas mulas, não será o sufficiente a produzir impressão n'uma natureza de poeta? Suppões que rejeitaria o teu dinheiro?... Enganas-te se tens dó d'elle! A mentira é perdoavel, quando d'ella depende a vida. Alimenta-lhe a esperança, promette-lhe o teu amor, dize-lhe que casarás com elle quando enviuvares,—tudo se pode dizer com nobreza: tua mãe não era capaz de te dar maus conselhos, Zina!—Has de fazer tudo isso para o salvar e o bastante para te justificares. Recuperará alento assim que souber que está esperando por ti. Tratar-se-ha, seguirá rigorosamente as recommendações do medico, ha de querer resuscitar para a ventura. Se elle se curar, ainda quando não viesses a ser sua mulher, sequer ao menos têl-o-has salvo! e se a desventura o tiver mudado, se o houver tornado digno de ti, casarás com elle. Effectuada a cura, poderás alcançar-lhe uma situação na sociedade, facultar-lhe{63} uma carreira. O teu casamento, n'estas condições, tornar-se-ha possivel. Hoje!... que é que os espera a ambos, se porfiassem em perpetrar o acto de loucura de casarem. O desprezo de toda a gente e a miseria.

Pensas acaso que a leitura entre ambos do seu Shakspeare lhes havia de compensar tudo isso? Ficariam a vegetar aqui em Mordassov até que elle morresse, o que não tardaria, aliás. Mas se está na tua mão o incutir-lhe gosto pelo trabalho e pela virtude!

Perdoa-lhe e adorar-te-ha. O remorso d'aquelle seu acto vergonhoso apavóra-o! O teu perdão tudo irá ápagar e reconciliál-o-ha comsigo mesmo.

Passa ao serviço activo, sobe postos, e se morrer, sequer ao menos morrerá feliz, nos teus braços (visto que poderás achar-te a seu lado), seguro do teu amor, do teu perdão, á sombra das murtas e dos limoeiros, debaixo da cupula azul de um ceu exotico. Ah! Zina! Tudo isto se acha nas tuas mãos; basta que consintas em casar com o principe.