—Nem sequer chego a perceber como é que tenciona dar-lhe volta, prosegue com enfado a Zina. Tenho a certeza de que o resultado que tirará será uma affronta. Pela parte que me toca, tanto se me dá, mas vae ter desgosto, creia.
—Ora! Se é só isso que te dá cuidado, vae descançada, meu anjo!
Comtanto que estejamos de accordo, quanto ao mais, pouco importa! Se tu soubesses os transes de que eu tenho escapado, sã e a salvo! Em summa, permitte-me fazer uma tentativa. É urgente que eu tenha quanto antes uma conferencia com o principe. Já estou adivinhando o que d'aqui sairá. De quem eu tenho medo é do tal Mozgliakov.
—Do Mozgliakov? perguntou a Zina com desdem.
—Do Mozgliakov, sim, pois que cuidas? Mas não te assustes, ainda assim, Zina, hei-de induzil-o a auxiliar-me, até. Nem tu sabes ainda quem aqui está, Zina! Ah! tão certa tenha eu a salvação, mas assim que ouvi falar no principe, accudiu-me logo semelhante ideia! Foi uma revelação. Quem havia de dizer que elle havia de vir parar a nossa casa! Bem podiamos estar cem annos á espera d'uma occasião d'estas! Ah! és tão linda, minha Zina! Que{74} belleza! Olha, eu, se fosse homem, atirar-te-hia aos pés um reino! Sucia de asnos! Quem não ha de estar morrendo por beijar esta mãozinha? (Maria Alexandrovna, effusiva, beija a mão da filha.) É a carne da minha carne!... É preciso casál-o dê por onde der, áquelle imbecil! E que bem viveriamos depois, Zina! Pois nunca nos havemos de apartar, não é verdade? Não pões na rua tua mãe, quando te vires feliz? Tivemos os nossos desaguizados, mas aonde irás tu encontrar outra amiga como eu? Eu, apezar de tudo...
—Mamã, se está resolvida, é tempo de fazer alguma coisa. Está perdendo minutos preciosos! disse a Zina, com impaciencia.
—E já vae apertando. Vae, sim, effectivamente. E eu aqui a dar á lingua! Querem açambarcar o principe! Vou já a correr. É já; mando chamar o Mozgliakov e carrégo com o principe, á força, se fôr preciso. Adeus, Zinotchka! Adeus, meu amor, minha pomba! Não te desconsoles, não desanimes, não estejas triste. Então!... Tudo ha de correr com dignidade, com muita, até. Tudo está no modo de encarar as coisas. Emfim! adeus, adeus!
Maria Alexandrovna faz o signal da cruz á Zina e sae. Investe para o quarto, detem-se um momento em frente do espelho e, d'alli a dez minutos, lá vae rodando por essas ruas de Mordassov, na carruagem de patins (já dissemos que Maria Alexandrovna vivia á larga.)
—Não, não são vocês que podem luctar de esperteza commigo! A Zina annue, e já é meio caminho andado! Não ser bem succedida! Que asneira! Ah! Zina, com que então, ha calculos que influem no teu animo? Commovi-a fazendo-lhe luzir deante dos olhos um risonho porvir... Como{75} ella estava linda, hoje! Ora, tivera eu sido tão formosa, e haveria revolvido, até, meia Europa. Em summa, paciencia, esperemos. O tal Shakspeare ha-de-lhe passar assim que ella se vir princêsa... E que princêsa não ha de ser!... Gosto de a ver assim; tão soberba, tão senhora de si!... Tem uns olhos de rainha!... Como é que ella poderia deixar de conhecer que ia n'isso o seu interesse?—Até que emfim percebeu-o! Ficarei vivendo em sua companhia, e ha de consentir em tudo que eu quiser. É princêsa? pois tambem eu! Hão-de falar de mim, em Petersburgo, até... E adeus... cidadezinha da asneira! O principe e o garoto hão-de ir marchando d'esta para melhor, e eu, caso-a com uma testa coroada! Ha só uma coisa que me mette medo: não terei usado para com ella excesso de franqueza? Assusta-me! Assusta-me deveras!
E engolfa-se em suas cogitações Maria Alexandrovna.