Assim que se viu entre quatro paredes, a Zina poz-se ás voltas no quarto, de mãos atráz das costas, a pensar. E não lhe faltava em quê, com certeza! E a revezes e quasi inconscia repetia: "é urgente, é urgente, ha já muito tempo que devia estar feito!" Que quereria dizer aquella exclamação? Por mais de uma vez as lagrimas lhe refulgiram n'aquellas pestanas tão longas e sedeúdas. Nem pensava, sequer, em as enxugar. A mãe fazia mal em estar-se inquietando! A Zina achava-se disposta para tudo...

"Eu te direi, deixa estar! pensou a Nastassia Petrovna ao saír do seu cadoz da farrapada depois de se haver retirado a coronela. E eu com tenções de pôr uma gravata côr de rosa por causa do tal principe! Sempre sou bem{76} tola! A enfeitar-me para casar com elle! Ora, uma gravata depressa se põe! Deixa tu estar, minha Maria Alexandrovna! Com que então, eu, sou uma pécora, uma miseravel? Acceito duzentos rublos para arrombar uma bocêta! Pois já se vê, não deixar escapar a occasião!... E demais... eu se o fiz foi por ser generosa, pois ainda tive que fazer despêsa... Eu te direi! Hei-de-lhes fazer ver a ambas se sou uma pécora ou se o não sou! Hão de aprender a lidar com a Nastassia Petrovna!{77}

VII

Maria Alexandrovna, comtudo, deixava-se arrastar pelo proprio talento. Concebeu um plano grandioso quanto audaz. Casar a filha com um ricaço, com um principe e um moribundo; casál-a sem que ninguem o soubesse, aproveitando a senilidade do seu hospede, era não só ousadia, mas imprudencia, até. Não havia duvida, o projecto era seductor, porém, em caso de malogro, poderia vir a reverter para o autor n'uma confusão sem antecedentes. Maria Alexandrovna bem o sabia, mas não era mulher para recuar.

—Tenho-me visto em peores lances, dissera ella á Zina, e era verdade. E seria uma heroina, se assim não fôra?

Certamente, o projecto tinha seus visos de bandoleirismo á mão armada; Maria Alexandrovna não era, porém, mulher para se prender com taes ninharias. Resumia o caso n'um dito muito acertado: "uma pessoa não fica para sempre casada." Era simplicissima semelhante ideia, mas apresentava á imaginação tamanhas vantagens, que Maria Alexandrovna era a propria a assustar-se.

Como mulher de recursos, dotada de legitima faculdade creadora, urdiu o seu plano n'um revez de mão. É certo que apenas se lhe pintiparava na mente a largos traços, um tanto vagos, até. Escasseavam pormenores e havia que contar com circumstancias imprevistas. Maria Alexandrovna tinha porém confiança em si mesmo. Não era{78} o malogro que lhe mettia medo, lá isso, não; o que a sobresaltava, era a impaciencia em encetar a lucta. A impaciencia, a nobre impaciencia minava-a, ao pensar nos possiveis obstaculos.

As mais sérias difficuldades, antecipava-as Maria Alexandrovna por parte dos seus nobres concidadãos de Mordassov, e acima de tudo, da nobre sociedade das damas Mordassovenses: Conhecia, por experiencia propria, até onde ia o odio de semelhante gente. Nem sequer punha em duvida, já se vê, que n'aquelle ensejo toda a gente lhe avaliava as intenções, supposto que ninguem houvesse dito ainda uma palavra fosse a quem fosse. Sabia, á força de triste experiencia, que não havia um unico acontecimento, por mais secreto que fosse, referente á sua vida, que, dando-se pela manhã, não andasse á noite na lingua de todas as mexeriqueiras. Maria Alexandrovna, pois, antevia apenas o perigo, esta casta de presentimentos, porém, que jamais a haviam enganado, não a enganariam ainda d'esta vez.

Eis, effectivamente, o que succedera, e de que ella ainda não tinha conhecimento. Pela volta do meio dia, isto é, tres horas, minuto por minuto, depois de haver chegado o principe a Mordassov, corriam pela cidade uns boatos algo singulares. Qual teria sido o ponto de partida? Ninguem o sabia, mas caso é que se espalharam acto continuo.

Afiançava toda a gente que Maria Alexandrovna já tinha promettido a mão da filha, da sua Zina, com vinte e tres annos e sem um kopek de dote, ao principe: que o Mozgliakov tinha sido posto a andar e que estava tudo resolvido e assignado.{79}