Qual era a causa de semelhantes boatos? Tão bem conheciam Maria Alexandrovna que lhe tivessem adivinhado, com tão perfeita unidade, os mais intimos pensamentos? Nem a inverosemelhança de um tal boato, visto como um projecto d'aquelle genero se não leva a effeito no espaço de uma hora, nem a falta evidente de todo e qualquer fundamento, pois ninguem sabia d'onde partira a noticia, puderam dissuadir os Mordassovenses. O mais surprehendente, era o haver-se principiado a espalhar o boato no proprio ensejo em que Maria Alexandrovna encetava aquella sua conversa com a Zina a semelhante respeito. Tal é o faro dos provincianos! O instincto dos novelleiros das cidadécas attinge por vezes as raias do maravilhoso. E todavia, o caso explica-se. Baseia-se no estudo intimo e perseverante do proximo. Todo o provinciano vive debaixo de uma redoma de vidro, como se disséssemos. É-lhe absolutamente impossivel esconder seja o que fôr aos seus honrados concidadãos. Sabem a seu respeito aquillo que elle é o proprio a ignorar. O provinciano, de sua natureza, devia de ser um psicologo profundissimo. E eis o motivo porque eu ás vezes pasmava sincéramente d'encontrar na provincia tão poucos psicólogos e tanto imbecil! Mas ponhamos isso de banda.
Estoirou a noticia tal qual o raio. O casamento com o principe antolhava-se tão vantajoso a toda a gente, tão brilhante, que a face extranha d'aquelle negocio a todos escapou. Dava-se ainda uma circumstancia: A Zina era tão odiada ou mais ainda que a propria Maria Alexandrovna; e por quê? Ninguem o sabia. Entraria talvez em linha de conta a formosura da Zina, talvez pelo facto de{80} Maria Alexandrovna, apezar de todos os pezares, ser, muito mais do que a filha, da mesma massa das outras Mordassovenses. Ausentasse-se ella da cidade, e quem sabe, é possivel que deixasse saudades. Dava animação á sociedade mediante incidentes variados. Sem ella aborrecer-se-hiam. Por outro lado, a Zina, pela sua attitude, parecia pairar nas nuvens e não em Mordassov. Não era da mesma raça, e talvez, inconsciamente, até, tivesse uns modos demasiado altivos. E eis que esta mesma Zina, ácerca de quem corria tanta historia escandalosa, aquella soberbona, apparecia millionaria, princêsa e entrava no rol da aristocracia. Dentro de um ou dois annos, talvez, vem a enviuvar e casa para ahi com algum duque, ou algum general, e quem sabe, com o governador, e coincide exactamente o estar viuvo e o ser grande admirador da formosura o governador de Mordassov. Desde então virá a ser a primeira senhora da provincia, e um tal pensamento, só por si, era intoleravel, nem haveria noticia capaz de provocar tanta indignação em Mordassov.
Estrugiam por todos os lados clamores de raiva. Diziam que era indigno; que o jarreta não tinha o juizo todo; que o tinham enganado, embaído; que urgia livrál-o da soffreguidão d'aquellas garras; que, apuradas as contas, era immoral,—uma ladroeira! Que não faltavam meninas valendo tanto como a Zina e em condições de casar com o principe.
Todas estas exclamações e estas linguarices eram apenas supposições da parte de Maria Alexandrovna, e já era demais. Estava farta de saber que toda a gente se achava prompta a praticar o possivel e o impossivel, até, para se{81} oppôr a seus projectos. Pois não haviam confiscado o principe e não tinha agora que o reconquistar a unhas e dentes? E d'ahi, dado ainda o caso de que ella lograsse tornál-o a agarrar e trazêl-o outra vez para sua casa, não poderá comtudo têl-o preso a toda a hora. Em summa, quem é que lhe podia affiançar que hoje, ainda, dentro em duas horas, o côro solemne em peso das damas de Mordassov se não terá congregado na sua sala, e a pretexto de ordem tal que se torne impossivel recebêl-as? Se ella lhes fechar a porta, entram-lhe pela janella. Em conclusão, não se podia perder um instante, e todavia, nada estava feito ainda.
De subito, eis que brota na mente de Maria Alexandrovna, e amadurece do mesmo jacto, uma ideia genial. Referir-nos-hemos á dita ideia em logar competente: n'este ensejo, a nossa heroina lá ia rodando a toda a pressa através das ruas de Mordassov, tremenda e inspirada, decidida a dar batalha para reconquistar o principe. Nem sequer sabia o alvitre que esposaria nem onde o iria encontrar; mas sabia com certeza que mais depressa devia afundar-se Mordassov do que falhar-lhe um unico de seus projectos.
Do seu primeiro passo não podia saír-se melhor. Encontrou o principe na rua e carregou com elle para jantar.
Se me perguntarem o modo porquê, cercada por tantas ciladas armadas contra si, conseguiu pôr o nariz a uma banda á Anna Nikolaievna, declaro que considero esta pergunta offensiva para Maria Alexandrovna. Deteve o principe no acto d'este estar á porta da casa da sua rival, e a despeito de tudo, a despeito até das objecções do proprio Mozgliakov, receoso de um escandalo, atirou com o{82} ginjinha para dentro do trem. Era n'isto exactamente que Maria Alexandrovna levava as lampas ás suas rivaes. Nos lances decisivos, não se detinha em presença de um escandalo, tendo como axioma que o exito a tudo justifica. Escusado será dizer que o principe não oppôz resistencia de maior, e como sempre esqueceu-se de tudo e ficou muito contente da sua vida.
Ao jantar, não fez senão dar á lingua, muito alegre, a fazer trocadilhos, a contar anecdótas que nunca concluia e passando de uma para outra sem dar por isso. Tinha bebido tres copos de champanhe em casa de Natalia Dmitrievna. Ao jantar, bebeu mais alguns e ficou alegrinho. Maria Alexandrovna era a propria a lhe não deixar nunca o copo vazio.
Eram irreprehensiveis as iguarias, aquelle ladrão do Nitichka esquecera-se de as chamuscar. A dona da casa desvelava-se em electrizar os seus hospedes com os enlevos da sua amabilidade. A Zina, comtudo, mantinha gélido silencio, e o Mozgliakov nem por isso estava nos seus dias. Comia pouco, estava muito preoccupado, a pensar; e, coisa que raras vezes lhe succedia, Maria Alexandrovna estava inquieta. A Nastassia Petrovna, mazomba, fazia ás escondidas signaes ao Mozgliakov e este sem dar por tal. A não serem Maria Alexandrovna e o principe, haveria descambado em jantar de enterro.
E comtudo, Maria Alexandrovna encobre intima afflicção: assusta-a a Zina, com aquelles seus modos tristonhos, de olhos vermelhos. E demais, o tempo não sobeja, e Mozgliakov, esse obstaculo material, está para alli como um marco de pedra. Ergue-se da mêsa Maria Alexandrovna,{83} minada por funda inquietação. Mas qual não é o seu espanto, deixem-me assim dizer, quando vem ter com ella o Mozgliakov e lhe declara, que sente muito, mas que se vae retirar immediatamente!